23 de mar. de 2019

O perigo de repetir o passado

Batalha na Guerra do Paraguai: matança encomendada
O capitão precisa tomar cuidado com a mendacidade. Não cai bem, a quem se anunciou espetáculo de grandeza, se revelar, abertas as cortinas da realidade, ópera bufa. Do último domingo a hoje, em meio a alguns importantes acertos - vide o ajuste do Brasil nos mares da OCDE, a sua inclusão na OTAN (Organização do tratado do Atlântico Norte) -, o nosso presidente tem surfado em pantomimas, estultices e ejaculação de lorotas.

A porta aberta aos estadunidenses, ainda que sem reciprocidade, atrai o turismo, mas não só de lá. Canadá, Japão e Austrália também gozarão do "mi casa, su casa", como diriam os irmãos mexicanos, tão duramente maltratados por El Capitán, em sua defesa do muro da vergonha.

Não se tem, ainda, a completa tradução do real conteúdo do "Pacto Donald" firmado com o nosso "presidente de honra" made in USA. O "imbróglio Venezuela", por tática de ambos os estrategos, está sendo tratado como segredo de Estado. Maduro está podre, mas querem derrubá-lo já. Seremos cabo de chicote, pelo que se depreende do servilismo em elevado grau, explícito e constrangedor.

A primeira vez que nos prestamos a tal calhordice se deu quando a Inglaterra financiou a Tríplice Aliança - Brasil, Argentina e Uruguai -, para destruir o Paraguai. Os britânicos, com a sua revolução industrial, abasteciam o ocidente, menos o sul da América, onde o Paraguai, governado por Solano López, era a grande potência econômica.

Como os nossos livros de história são omissos em grande parte dos fatos, contemos que os paraguaios tinham siderurgia, fundições, estaleiros, forte indústria têxtil, ferrovias etc. Abasteciam o Cone Sul. Financiados pelos ingleses, conluiados com argentinos e uruguaios, nós os destruímos. Esse Paraguai que aí está é culpa nossa.

Pauta Venezuela. Será que vamos nos prestar novamente ao papel de instrumento em prol de interesses de terceiros? 


Presidente, resolvamos, primeiro, os nossos problemas, que são muitos. Acelere. O Brasil precisa que o senhor acerte. e tem pressa.

P.S. - O nosso capitão precisa domar os seus pitbulls. O Brasil não é o quintal de condomínio e muito menos game para filhinhos mal educados, que se acham acima de tudo e de todos, só porque papai é presidente. Dê um açaimo a cada.

22 de mar. de 2019

Os filhos do egoísmo e o homem de Neandertal


Difícil o viver hodierno. Ou seria "ódierno"? Já não somos, estamos humanos, numa transição do racional para o irracional. Involução da espécie, darwinismo ao avesso. Os olhos despejam olhares de insatisfação, de impaciência, de repúdio, de intolerância. E as palavras são isso, explicitamente.

Amor ao próximo só quando nos olhamos no espelho. Mãos estendidas para receber,  nunca para dar. Pela escala de valores, primeiro, o celular; depois, o resto. Vivemos a era do culto ao ego. Myself. Selfies.

Vida privada passa a ser pública. A face que antes guardava os nossos segredos e vontades, hoje é janela escancarada. É face...book. Vidas expostas. Corpos e almas desnudas.

Os nossos valores são medidos pelos tamanhos de bundas, peitos e pênis. Banalização do sexo, vulgarização de atributos. Os segredos por trás dos decotes e das saias viraram domínios públicos. Os valores morais, a ética e os bons costumes foram remetidos ao período jurássico. Coisas de  demodês, neste universo anômico, onde pais e filhos apenas inspiraram o nome de velha revista.

Não, este texto não tem nada a ver com misoneísmo - rejeição ao novo. Tem a ver com saudosismo, com os tempos em que as famílias eram de verdade e não apenas verbete de dicionário. Época em que as pessoas se respeitavam e se amavam. Época em que éramos humanos, em que éramos felizes e sabíamos. 

Me perdoem se estou sendo neandertalesco, mas o mundo, antes, era bem melhor.

P.S. - Hoje, pais e filhos são estranhos sob um mesmo teto. Quase não se comunicam. Egocêntricos. Todos cultuando celulares, os deuses do seu individualismo.

19 de mar. de 2019

O pai da bossa na fossa. João penhorado. Mundo desafinado

João Gilberto e Tom Jobim: quando a bossa nova
começou
João Gilberto, baiano de Juazeiro. Sem voz. Afinado. Violão na batida que o mundo parou para ouvir. Bossa. É bossa nova. Nova música, novo Brasil. JK. É Brasil lá fora. João e Tom. Tome música. Nova Iorque, Carnegie Hall, o templo sagrado dos mais mais. Além de ambos, a primeira brasileira a ganhar o Grammy: Astrud, que virou Gilberto. The girl from Ipanema se fez mundo. Fechando o quarteto, o sax do monumental Stan Getz.

João, o Gilberto, pai da Bebel e da bossa nova, que cantou em todos os cantos do mundo, escolheu reclusão voluntária. 87 anos. Não quer ver ninguém. Passem as coisas a ele por debaixo da porta.

Hoje, 19, passaram também um papel. A 25a. Vara Cível do Rio penhorou R$79.692,00 das suas contas bancárias. Era fiador do contrato de aluguel de um imóvel no Leblon, área nobre do Rio, onde morava uma ex-namorada, inadimplente. Despejada. 

João de tantas mulheres - Sílvia Teles, Marisa Gata Mansa, Astrud, Miúcha, Maria Harris etc., está num canto, sem dinheiro, sem banquinho e violão, esquecendo o passado e esquecido no presente.

Fechou a porta e, por capricho do destino, é nome do seu primeiro sucesso esse seu desligar de tudo e de todos, esse seu adeus ao passado. Chega de saudade...

P.S. - João Gilberto pleiteia na Justiça, contra a gravadora EMI, indenização de R$170 milhões por danos morais e uso indevido de direitos autorais, entre 1964 e 2014.

Curtam aí, clicando o link, João e Tom. Chega de saudade.

https://youtu.be/xZvAgusfuls

Deuses sem limites, bocas sem cérebro e o som dos "trumpetes"


Faetonte, filho de Hélio, o deus Sol, vai um dia até ele para pedir ajuda. Os amiguinhos haviam posto em dúvida sua origem divina e ele pede ao pai alguma coisa que lhe permita demonstrá-la claramente à patota dos incrédulos.

O deus promete atendê-lo e o faz em nome de Estige, a ninfa-rio que simboliza os juramentos solenes dos deuses do Olimpo, o que torna a palavra dada irrevogável.

Mas só após a promessa feita é que o jovem lhe pede para guiar, por um dia, a carruagem com que Hélio faz seu astro percorrer a abóbada celeste. O pai suplica, inutilmente, que desista da ideia, mas acaba cedendo. Também inutilmente, recomenda prudência na condução de poderosos cavalos.

Faetonte está decidido a mostrar a sua habilidade às irmãs (as Helíades) e também, à Clímene, a mãe, que o encoraja. Lançando-se no céu, logo perde o controle dos animais que as suas próprias irmãs haviam domado. Em sua maluca trajetória, a carruagem primeiro voa muito alto, depois desce e se aproxima demais da Terra. A vegetação se incendeia, os rios secam, até que Zeus põe fim ao desastre, atingindo Faetonte com um raio. O rei dos deuses só intervém porque Hélio, o pai, não soube ser severo, impor limites, dobrando-se ante a arrogância do filho.

Seria interessante que o capitão-presidente se mirasse no exemplo e se poupasse do erro da falta de rigor do Deus Hélio e desse um basta à arrogância dos seus três Faetonte, impondo a eles limites, antes que incendeiem o seu governo e sequem os rios de esperança de um país que precisa e torce pelos seus acertos.

ATO II

Ou capitão-presidente foi mau aluno em Agulhas Negras ou também não passou pela Escola Superior de Guerra. Infelizes as suas colocações nas entrevistas dadas em Washington. Falta que queira construir um muro entre Brasil e Venezuela, tamanha a ênfase que deu ao "wall of Trump", na fronteira com o México. Mas o esbarrão maior ficou por conta da infeliz afirmação de que "a maioria dos imigrantes não têm boa intenção".

Talvez ache que brasileiros honestos são os que ficam aqui. E, com certeza, ignora que, tanto a nossa terra quanto a do seu amigo lá do Norte, só alcançaram desenvolvimento econômico graças à força de trabalho das colônias de imigrantes - realce para a dos italianos, em maior número em ambos os países.

Importante que alguém lembre a ele que os Bolzonaro (com "z", na sua forma original), seus ancestrais, são da região do Vêneto e que há, hoje, parentes dele em Rovigo, Anguillara e San Martino di Venezze. Generalizar a má índole dos que vêm de fora é olhar-se no espelho e cuspir em si próprio. Nativo puro nessa terra brasilis, tirando os índios, outro não há.

ATO III

O bate-bola dos "Trumps": relações comerciais
em primeiro plano
(Imagem Rede Globo)
O Pacto Donald foi firmado. Os militares de lá só vão usar a base espacial de Alcântara, no Maranhão, se o Congresso estadunidense, majoritariamente democrata, aprovar os termos do acordo. Mas será injusto dizer que não há esforço do presidente em tentar consolidar, a curto prazo, uma aliança de livre comércio com os Estados Unidos.

Óbvio que não se pode esperar resultado imediato das tratativas, até porque há óbices por conta das barreiras burocráticas, tarifárias e não tarifárias vigentes, culminando com as sobretaxas a produtos brasileiros - lutar pelo seu fim é uma das metas do presidente. Resta saber se haverá, por parte de Trump, a flexibilização da polêmica "America First", a plataforma de política externa da Casa Branca. Esperar e ver.

P.S. - Recebo mensagem: pedido de impeachment de Gilmar Mendes tem 150 páginas. Só dele? E os outros? E os outros de outros tribunais? E aquela regra que condena juiz corrupto à aposentadoria compulsória com vencimento integral? Se fosse só Gilmar o problema...

18 de mar. de 2019

Davi prende o rabo e Dodge vira Fordinho 29



Segunda-feira 18, São Paulo. Embora tenha dito que não criaria obstáculos para impedir a CPI do Lava Toga, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, perguntado, na FIESP, sobre o que fará com o novo requerimento a ser protocolado nesta terça, disse: "O nosso país precisa de estabilidade. As instituições têm de funcionar e o Brasil não pode, nesse momento delicado de sua história, ter clima de conflito entre as instituições. Uma guerra institucional não vai fazer bem ao Brasil, neste momento".

Davi fazendo média. É alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal, que apuram irregularidades na campanha dele, em 2014. As ações tramitam de forma conjunta e estão sob a relatoria da ministra Rosa Weber. Um dos casos corre em segredo de Justiça.

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Do pastor Silas Malafaia, ipsis verbis/ipsis litteris: "Eduardo Bolsonaro ajudaria muito mais o governo do pai parando de falar asneira. Poderia ter ficado de boca fechada na questão dos imigrantes ilegais brasileiros. Não conhece a realidade da questão. A maioria, quase que absoluta, vai para trabalhar".
E arrematou: "Não tenho vergonha dos brasileiros ilegais que estão em diversas nações poderosas. Pelo contrário, são trabalhadores que foram tentar a vida, fugindo do desemprego".
Pelo andar da carruagem, as alas bolsonaristas estão em conflito. Evangélicos, militares e olavetes trocam petardos entre si. Batem do pescoço para cima.

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Depois da canetada que exonerou 21 mil comissionados e extinguiu os cargos que ocupavam, o presidente Bolsonaro fez publicar no Diário Oficial desta segunda, 18, decreto estabelecendo que, a partir de agora, só quem é ficha limpa poderá ser nomeado para cargos comissionados. A medida também torna inelegíveis servidores enquadrados na mesma lei. Resumindo: detonou a farra de cargos do PT e avisou que só limpo joga no time.

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Também nesta segunda, 18, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o Diretor Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, estiveram tentando negociar, nos Estados Unidos, o acesso aos dados do Facebook e Whatsapp, sem a necessidade de um pedido judicial. Não creio que consigam. O sigilo faz parte da confiança entre os usuários e as duas ferramentas. Ambos (e também o pessoal do CNJ) deveriam ler melhor a Constituição. Ela prevê a inviolabilidade de correspondência e isso se aplica às parafernálias da modernidade. Assim, os meios eletrônicos, realizados em redes sociais e e-mails, têm sigilo amparado pela Lei Maior. Aqui e lá, onde o rigor é total.

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De Dodge a Fordinho 29. É farpa à Procuradora Geral da República, depois de sua queda de braços com a força-tarefa da Lava Jato. Pensando em ser reconduzida ao cargo, Raquel Dodge caiu em desgraça junto aos colegas de instituição e sabe que, dificilmente, obterá os votos necessários para compor a lista tríplice a ser enviada ao presidente Bolsonaro. Os rumores lá na PGR sinalizam que ela alimenta a esperança de ser indicada pelo presidente, à revelia da lista. A eleição será daqui a seis meses.

P. S. - A Associação Juízes para a Democracia expediu nota em defesa do STF e repudiando os ataques ocorridos neste domingo, 17, contra a instância maior do Poder Judiciário, em Brasília. Dezenas de faixas foram colocadas, em protesto contra aquela instituição. A mais violenta delas: "STF, puteiro do PT".

A Casa Branca e a casa de Mãe Joana

O presidente Jair Bolsonaro falando a "formadores de opinião", em Washington
Foto: Alan Santos (PR)


O Brasil espera e precisa que o presidente Bolsonaro acerte, devolva o país ao desenvolvimento e esperança ao nosso povo. Há um país em oração para que isso aconteça.

Mas há um conjunto de atitudes que resultam num grande ponto de interrogação. Começa pelo vazio no comando. Há muita gente, sem legitimidade, falando pelo presidente. Esta viagem aos Estados Unidos só faz aumentar a dúvida sobre quem é que de fato manda aqui.

Na chegada, o jantar na casa do embaixador brasileiro Sérgio Amaral mais pareceu bandeja de loas ao escritor Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, do que talheres de boas vindas ao nosso presidente. Presentes à farta mesa estavam formadores de opinião e ativistas da extrema direita estadunidense, capitaneados por Steve Bannon, o mago estrategista de Trump.

Pelo que lemos, vimos e ouvimos, o périplo da nossa comitiva, mais que do que estreitamento de relações, cuidará da materialização da nossa subserviência aos anfitriões. No ágape de domingo, alguns pontos foram discutidos. Um deles, a nossa relação com a China, maior importadora dos alimentos que produzimos. Trump não quer os amarelos por lá e, no jantar, o alerta foi dado: qualquer concessão aos chineses merecerá restrições de Tio Sam.

Segundo Olavo, bisando o presidente eleito, "a China pode comprar ao Brasil, mas não comprar o Brasil ". É o velho discurso do macarthismo ianque e do lacerdismo tupiniquim: nada de negócios com países comunistas. Coisa de mentalidades jurássicas. Comercialmente, a China surfa nas ondas do capitalismo. Vamos dizer não a um bom freguês, porque o Trump 1 manda e o Trump 2 obedece.

Nesta terça, 19, ambos os presidentes estarão reunidos para firmar o "Pacto Donald". Dentre os pontos principais, o uso de tecnologia americana para o lançamento de satélites, por nós e por eles, na nossa base em Alcântara. Outro, polêmico e questionável, é o da não exigência de vistos para que cidadãos estadunidenses entrem no Brasil quando quiserem, sem que tenhamos direito à reciprocidade, ou seja, não podemos entrar no país deles pela mesma norma. Ao oficializar o nihil obstat, nos fazemos (mais uma vez) quintal da Casa Branca. Pior: viramos casa de Mãe Joana. Infelizmente.

P. S. - O Brasil torce e espera que o presidente acerte, mas que também governe, decida e aja como presidente de todos os brasileiros e não só dos que nele votaram.

17 de mar. de 2019

Sábados, domingos, segundas... a esperança persiste

Domingo, pé de cachimbo. Da paz. Precisamos. O nosso mundo está tomado pelo ódio, intolerância, desamor, indiferença. Harmonia não há, nem mesmo na música nativa, outrora tão boa. A vida é bela, mas a fazemos feia. O verbo de Deus foi mudado: odiai-vos uns aos outros. É o mandamento da vez.

Ali na banca, conversávamos sobre o nosso Brasil. Queixas. Bolsonaro ainda não disse a que veio. Uma pessoa ao lado, fora da roda, invade o espaço: "Isso é conversa de esquerdista, de comunista. Essa raça tem que ser extinta".

Democracia é vez e voz para todos, mas, ao que parece, menos para os democratas que estão no poder. Óbvio que há gente boa em todos os lados - como há em todos os segmentos sociais -, daí que esta segregação em curso nos coloca num campo minado, conflitos à espera da primeira pedra.


A ampla matéria deste 17 de março, publicada pelo Estadão, é documento que justifica essa preocupação. Há um bunker reunindo exército de bolsonaristas e olavistas para promover o linchamento virtual de quem ouse discordar do que aí está. Detalhe: o primeiro nome, comandando a tropa, é o do próprio presidente.

Esse trupe me traz à memória os "camisas pretas", da Ação Integralista, de Plínio Corrêa de Oliveira, apoiadores da ditadura de Getúlio Vargas, e, mais recentemente, 1964, os brucutus do CCC - Comando de Caça aos Comunistas. Sorte dos de antanho que eles não tinham a internet.

Ódio, intolerância, racismo - essa a matéria-prima desses robôs fantasiados de humanos e que, em nome do "podemos porque mandamos", estão levando ao rompimento as relações humanas. Sejamos diferentes nas ideias, mas iguais no respeito, na urbanidade. Os de tal conduta hostil não podem falar em democracia, Pelos atos, nem sabem o que é. 

Folheando jornais e revistas, há dois outros pontos em evolução e à espera de ebulição: a ativação imediata da Operação Lava Toga e a mobilização comandada pela deputada Joice Hasselman. A líder do Governo no Congresso pede a aplicação do artigo 142, da Constituição, que trata da intervenção militar, e que ela se dê no Supremo Tribunal Federal.
Que venha a Lava Toga. Intervenção militar? Essa moça está mexendo com fogo.

A semana terminou com a carta de Lula aos lulistas: é inocente, quer julgamento justo, foram desumanos no caso dos velórios, que só está preso por conta de manobras políticas com o apoio da mídia, tendo à frente a Rede Globo. Ah, e que Bolsonaro só foi eleito porque não o deixaram ser candidato.

Outra semana começa com a surpreendente declaração do guru do capitão, Olavo de Carvalho. 
Neste sábado, nos States, ele participou de encontro promovido por Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca e da campanha de Trump. Questionado sobre como avaliaria o governo que ajudou a eleger, foi direto:

"Se tudo continuar como está, já está mal. Não precisa mudar nada para ficar mal. É só continuar assim. Mais seis meses, acabou".

Cai o pano.


P.S. - Na quinta-feira, de uma canetada só, o presidente Bolsonaro demitiu 21 mil servidores comissionados, bem como extinguiu os respectivos cargos. Haviam sido nomeados nos governos Lula/Dilma. 

16 de mar. de 2019

A lei de Lampedusa no império da mentira


Com a retomada da democracia no país, descobrimos, na esteira das decisões que se sucederam, que os ares de liberdade eram engodo, falso cenário a esconder a verdade silenciosa e subterrânea sobre o novo Brasil que surgia.

Giuseppe Tomasi de Lampedusa, o palermitano autor de "O Leopardo", que virou filme de Visconti, com Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinale, é o pai de enunciado que melhor define os embustes usados nos chamados processos de democratização.

No Il Guepardo, o príncipe Falconeri, ao declarar que vai compor as tropas contra o sistema, justifica a sua decisão e define os objetivos da sublevação: "Algo deve mudar, para que tudo continue como está". 


Este pequeno excerto entrou para o universo da política hodierna como "La legge di Lampedusa". É a lei que move governos e parlamentos - e aqui neste nosso rincão, tem sido o fundamento garantidor do status quo de um dos sistemas republicanos mais corruptos do mundo.

A nossa Constituinte foi uma farsa - um golpe branco. Ao invés de uma assembleia nacional formada por pessoas do povo e específica para tal fim, o então presidente Sarney, por decreto, estabeleceu que os parlamentares federais (deputados e senadores), eleitos em 1986, comporiam plenário uno, para elaborar a nova Cartas Magna.

Não tivemos o povo na lavra. Partidos políticos enxertaram na nova Constituição as suas propostas adredes à sua ideologia e, depois de quase dois anos, vimos a consolidação do golpe. Ao não submeter a nova Carta a um referendo - o aceite ou não pela população -, promulgou-se a tal, sob o argumento da desnecessidade, pois estávamos saindo da ditadura. Mais do que nunca e justamente por isso, a consulta aos brasileiros se fazia indispensável.

Outubro de 1988, dia 5. Festa. O Brasil, que, em 1985, havia saído da ditadura militar, entrava agora na ditadura partidária. Amarrado pelos partidos, o Executivo não governa e passa a ser um agente a serviço dos interesses do Parlamento. É o famoso toma lá, dá cá. Soma-se a ambos o Judiciário, contumaz agressor de uma Constituição da qual deveria ser o guardião. Assim, são três poderes que, ao invés de do povo, pelo povo e para o povo, estão a serviço de seus próprios interesses e nos de outrem.

Reforma da previdência, política, tributária, pacto federativo etc. Todos falam em mudanças, em reformas. Retórica, apenas isso. Não querem mudar nada. Ou alguém acredita que, nesta tal reforma previdenciária, por exemplo, deputados e senadores votarão para que as suas polpudas aposentadorias sejam reduzidas ao teto máximo de R$5 mil, pagos aos da planície? Amigos e amigas, os tais jamais irão mudar aquilo que os beneficia.

Lei de Lampedusa. Nunca se esqueçam dela.

P.S. - Como dizia antigo deputado federal mineiro, José Bonifácio: "Aqui no Congresso tem de tudo. Tem ladrão, tem honesto, canalha, gente séria… Só não tem bobo".

15 de mar. de 2019

"Não sois máquina; homem é o que sois"


Há duas palavras que, por estupidez, ignorância, negligência, prevaricação e irresponsabilidade, abolimos do nosso dicionário - e ambas indispensáveis (vitais) para o nosso "convívio" familiar: LIMITE e NÃO.

Limite, do latim "limes", era um conceito simples: indicava o caminho que marcava os confins dos terrenos agrícolas e, depois, todos os tipos de fronteiras. E a regra era simples: não ultrapasse.

Abolimos o limite e o agente limitador, o não, aquele advérbio preferido pelo Criador, quando, via Moisés, cravou em pedra um decálogo regulador das ações humanas, no dia a dia: não roubarás; não matarás; não levantarás falso testemunho; não fornicarás etc.

Os meus pais jogaram duro comigo, mas os pais de hoje são "complacentes". "Paizão legal", "Mamãezinha querida", bajulações interesseiras dos filhotes e condescendência intencional de pais que, abstendo-se do dever de educar os seus mocinhos e moçoilas, aquiescem a tudo, deixando à margem os moldes da decência, da moral e dos bons costumes. Não estão criando homens e mulheres, mas tão só buscadores de bens materiais ou simbólicos. Criando seres vazios.

Trabalhar é preciso, viver não é preciso. Parafraseando o general romano Pompeu, eis o mandamento único dos caçadores de bens materiais que, na conjugação permanente de um único verbo - TER -, ignoram o verbo da existência, da razão de estarmos aqui: SER.

Eu sou, tu és, ele é… Preferem o eu tenho, tudo tens, ele tem… Na busca dessa posse, desse ter mais e mais, despejam os seus filhos diante das tevês e breguetes eletrônicos condicionantes e/ou alienantes, antes ou depois de os despejar nas escolas, transferindo aos professores a responsabilidade negligenciada em casa.

Pobres mestres, quase sempre por eles agredidos verbal e, muitas das vezes fisicamente, quando não pelos pais dos tais, assim que os seus queridinhos, preguiçosos, relapsos, que nada estudam e nada sabem, levam nota mínima nas provas que não dão conta de fazer.

A educação, que busca formar homens e mulheres para o exercício da cidadania e dos ricos valores que os dignificam, perde, hoje, para a cultura do consumismo e da busca do prazer individual e imediato. O resultado é desastroso: exército de cabeças ocas, geração sem ideias

A modernidade e o progresso somados aos preceitos da família tradicional podem, sim, resultar num conjunto harmônico com liberdade e responsabilidade. Depende da determinação, da perseverança, do querer de todos (a casa sobre a rocha).

Sem limites e sem nãos, sem a bússola de verdadeiros pais, são filhos do ócio, dos vídeos, dos sites de conteúdos perigosos - desvios de conduta, pedofilia, racismo, intolerância, violência etc., quando não adotados pelas drogas.

Busco em "Tempos Modernos", de Chaplin, a pertinente máxima "não sois máquina: homem é o que sois". O universo da tecnologia está mecanizando sentimentos, robotizando a família e aniquilando almas. Para essas, não há prótese.

P.S. - A instituição família está respirando por aparelhos. É preciso salvá-la. E, também, trazer de volta a tolerância, ressuscitar o perdão e o mais importante dos sentimentos: o amor, a verdadeira fagulha divina.

14 de mar. de 2019

Por 6 a 5, STF condena a Lava Jato à morte

A indignação nas redes sociais

6 a 5. Mataram a Lava Jato. Os bandidos da política estão exultantes, com certeza. Os crimes comuns ligados a Caixa 2 (corrupção e lavagem de dinheiro, entre eles) serão julgados, a partir de agora, pela Justiça Eleitoral - TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral), nos Estados.

Como nem lá e nem nos estaduais há estrutura e pessoal para fazer tudo dentro do que manda o processo penal, para a efetiva aplicação da lei, não nos assustemos com os resultados. Afinal, se nem o tribunal maior dá conta de resolver simples pendências (é uma fábrica de liminares, onde acusados conseguem "alvará temporário de impunidade"), imaginemos como ficarão as coisas cá embaixo.

A sessão desta quinta-feira, 14, do Supremo Tribunal Federal, veio mostrar, mais uma vez, que aquela Corte, tida como guardiã da nossa Constituição, é a primeira a violentá-la - exceptuemos alguns de seus membros, em alguns momentos.

A Justiça Eleitoral não tem estrutura para trabalho de tal calibre. Desaparelhada e falha. Barroso conhece a casa. É o vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral e, portanto, melhor do que ninguém, sabe o que diz:

"As estatísticas de condenação pela Justiça Eleitoral são pífias. Nós vamos transferir para essa estrutura inexistente a competência para enfrentar a criminalidade institucionalizada no Brasil, quando esteja associada a delitos eleitorais. Penso que não seja uma transformação para melhor". :

E conclui: "Quando uma das coisas que estão dando certo no Brasil, neste momento em que tanta coisa anda errada… vem o Supremo e muda, e passa para uma justiça (eleitoral), que não tem nenhuma expertise no tratamento de questões penais e menos ainda no enfrentamento criminal da corrupção".

As redes sociais mostram a indignação de um País contra o seu Judiciário. Perde força e respeito um poder que pune os seus juízes corruptos com aposentadoria compulsória e salário integral. Prêmio vitalício por ser desonesto.

Até quando?

13 de mar. de 2019

"No meio do caminho tem uma pedra..."

O ataque a tiros na escola estadual Raul Brasil,
em Suzano, deixou 10 mortos e 10 feridos

Suzano, São Paulo. Tiros em uma escola, uma dezena de mortos, autores se suicidam. Não tão comum aqui, ainda não se sabe o que teria levado duas pessoas a tal conduta. A verdade é que temos hoje, no Brasil e no mundo, a crescente cultura da violência, da arrogância, da prepotência, males que têm como ingrediente o mais abjeto dos fatores sociais negativos: a intolerância.

E ela se alastra, arraiga e ganha contornos mais nefastos com a idiotia dos que vestem fantasias ideológicas e desfilam, em blocos renitentes, as mais estúpidas versões de suas aversões, como se senhores da razão fossem. Aceitam os que comungam de suas ideias e ódios, desprezando, agredindo e extirpando do contexto que pretendem impor, as vozes dissonantes.

Vivemos em uma sociedade consumista, imoral e avançada, movida pela ambição, e que, infelizmente, com a perigosa catequização da mídia, descarta as virtudes - apud Maquiavel - e, voraz, tudo faz pela busca da fortuna . Modo finis est licitus - ensinava o malévolo florentino o seu pragmático brocardo: o fim justifica os meios.

Vivemos em uma sociedade atrelada ao visor de celulares e submissa ao brilho da tela dos televisores, inserindo em seus cotidianos o desfile de condutas degradantes, onde preponderam a dilapidação dos bons costumes, a idolatria da violência e a banalização da vida.

Filmes carregados de armas carregadas de balas nas mãos de crianças e adolescentes carregados de inconsequência. Ou de pancadarias e de estímulo a elas. Pais espancando filhos e vice-versa. Maridos agredindo esposas e, sempre, o ciúme e uma garrafa entre eles.

Games violentos frequentam as salas das casas, onde, sem a medida do limite, são construídos meninos arrogantes, de caracteres deformados, que se dão ao desrespeito às regras sociais, indo do culto prazeroso ao vandalismo à cultura do bullying nas escolas. Livres e soltos, aprendem a cultivar as diferenças e a rejeitar as igualdades. Filhos da plutocracia, acham que tudo podem.

Na outra mão da vida, estão os hipossuficientes, os filhos paridos pela desigualdade social, aqueles que só são lembrados em anos eleitorais e, depois, esquecidos pelas autoridades, que fecham os olhos ou as janelas de seus carros, nos sinais de trânsito.

Estigmatizados pela cor, pela raça, ficam à margem, excluídos do contexto dos verbos ser e ter, num mundo onde não são, apenas estão, e nada têm, a não ser sonhos com as coisas bonitas, o conforto e a vida digna. Na impossibilidade, armas, o tomar pela força.

Nesse mundo permeado por injustiças e impunidades, em que pelejam fortes e fracos, ricos e pobres, a paz é discurso. A violência, oxigênio. No meio do caminho de ambos, uma pedra. Crack.

P.S. - E o nosso capitão-presidente acha que disseminar o porte de armas é solução para a violência.

12 de mar. de 2019

Circo MEC: muitas palhaçadas e poucos palhaços

 

Ricardo Vélez Rodríguez, colombiano naturalizado brasileiro, ministro da Educação, trapalhão que é, balança na corda bamba. Primeiro, pelas medidas adotadas e depois mandadas para o lixo, tão disparatadas que eram - uma delas, do Hino Nacional de canto obrigatório e filmado e que o slogan de Bolsonaro fosse lido.
Segundo, porque quem o colocou lá foi o então amigo e ideólogo Olavo de Carvalho, que seria o "pai" da história do hino e que, descontente com o recuo, teria pedido a sua cabeça ao presidente.

Melhor Vélez já ir se acostumando com a ideia da provável exoneração. O padrinho, que é "eminência parda" do Governo, também teria indicado para o cargo o atual secretário de alfabetização do Ministério, Carlos Nadalin. O novo afilhado é conhecido por defender  a adoção do ensino domiciliar e ser dono de conhecido e frequentado site na internet, "Como Educar seus Filhos".

Lamentavelmente, este governo começa sem priorizar e fortalecer a sua  pasta mais importante: a Educação. Há muito que a solapam, que a deformam, que a negociam. Prevalece a regra máxima de regimes totalitários: nada de conhecimento ao povo. Quando mais desinformado e vazio for o cidadão, mas fácil de se submeter ao domínio dos senhores instalados.

Há muito que está tudo errado. Nos países de maior desenvolvimento, o segundo grau é profissionalizante. Aqui, as faculdades particulares e seus vestibulares fictícios estão formando mão-de-obra. São verdadeiras fábricas de diplomas a enriquecer a chamada "máfia do ensino".

Elas estão por todos os cantos. E na internet, com o farsesco Ensino À Distância (EAD). Os nossos jovens pagam cursos e levam os diplomas, mas são poucos os que têm conteúdo para exercerem as suas profissões. Há diplomados demais e empregos de menos.

Mesmo os profissionais mais bem qualificados estão tendo dificuldades para entrar no mercado de trabalho, prova de que estamos formando bacharéis, mestres e doutores para o desemprego. Enquanto que, no mundo, a taxa de desocupação desse grupo gira em torno de 2%, aqui no Brasil, a média é de 25%. Os números estão aí, resultado de pesquisa do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Precisamos de ministro e Ministério de Educação cumprindo o seu desiderato. Não podemos mais conviver com o flagelo de 2,8 milhões de crianças e adolescentes, de 4 a 17 anos, fora das escolas. Inaceitável que apenas 9% dos estudantes que terminam o segundo grau saibam alguma coisa de Matemática.

O nosso sistema educacional, deformado pela irresponsabilidade dos governos e pela corrupção, tornou-se tão perverso a ponto de empurrar três em cada 10 brasileiros para o analfabetismo funcional. Até quando?

Que o nosso presidente saiba que a Educação é um dos pilares da sociedade e que, por isso, não deve ficar como moeda de troca ou para atender veleidades e vaidades de presunçosos ou de falsos ilustrados.

Abaixo as "schools picks" (escolas picaretas). Precisamos de escolas e de ensino de verdade e de estabelecer limites para as autorizações a mancheia de cursos para as fabriquetas de diplomas que prejudicam o nosso país. É preciso mudar tudo, agora e já.            
P.S. - Üm país se faz com homens e livros". (Monteiro Lobato)