18 de abr de 2019

A vox populi e o crocito dos corvos


Caça aos críticos do Judiciário. A decisão do presidente do STF, Dias Toffoli, e a ação de seu agente do abuso, Alexandre de Moraes, são atentados à democracia. Não existe pátria de intocáveis e não queiram ambos nos intimidar, jornalistas e cidadãos. 

O STF, como instituição, é, sim, respeitado, menos por alguns de seus ministros, indivíduos de posturas e ações dúbias, algumas das quais em afronta à própria Constituição, da qual - pelo visto, apenas teoricamente - deveriam ser guardiões. 

Censurar uma revista e um site por veicular notícias contidas em autos da investigação da Lava Jato e, portanto, extraída de fonte oficial e confiável de investigação, sob a alegação de que se trata  de "fake news", é achar que todos somos, a seu ver, pátria de imbecis.

A repulsa ao ato se faz maior dada à desfaçatez de Toffoli, motu proprio, instituir um tribunal de exceção, fazendo de seu "cúmplice" Moraes o Andrey Vychinsky tupiniquim, ambos protagonistas desta afronta ao estado de direito que, com muita luta, conseguimos construir. 

Um dos equívocos da nossa Carta Magna, de 1988, foi a introdução do quinto constitucional, instrumento que permite à OAB e ao Ministério Público, nas esferas federal e estadual, indicar, em lista a ser submetida ao presidente da República e aos governadores, os nomes a serem por eles escolhidos, para as Cortes de Justiça superiores e as estaduais. Nomeia-se quem nunca julgou nada na vida. Não são julgadores de carreira e nem estão ali por mérito, mas por escolha política. 

Deveriam estar lá em cima juízes que começaram cá em baixo e, por mérito e tempo, galgaram etapas, até chegarem ao topo. Ou fichas limpíssimas aprovados em rigoroso concurso e sabatinados pelo Congresso. Mas não é o que se vê. Togados comprometidos com os governantes que os escolheram e nomearam ou com forças afins - eis o que temos.

O STF tem que merecer, antes do nosso, o respeito dos que o compõem. Talvez seja esperar muito de Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Lewandowski e similares. Ações como o cala boca, a mordaça, a censura estúpida via conduta abusiva dos que têm a certeza de são deuses, estas, sim, enlameiam a imagem da nossa Suprema Corte.

P.S. - Não será com arrogância, abuso de poder e faniquitos de pseudos juízes que a vox populi se fará muda. Contra ela soa rouco o crocito dos corvos.

15 de abr de 2019

A mão da ajuda e o punhal de Brutus


Ser humano. Denominador comum. Apenas, ser. Humano é marca de fantasia (false mark). A cada gesto, a cada palavra, a cada ação, só existe a primeira pessoa. Os seis pronomes do caso reto são um só: EU.

Nem todos os seres. Não generalizemos, claro. Há muita gente boa. Ao longo desta minha vida septuagenária, vi, vivi e aprendi lições. Honradez e retidão, caráter e responsabilidade trazemos do berço. São os ingredientes que fazem com que atravessemos o mundo, sem sermos cínicos, hipócritas, falsos, levianos, falaciosos... Nem todos têm a felicidade de ter os pais que tivemos. Ainda assim, poderiam se inspirar em bons exemplos e se construírem melhores.

Das lições trazidas de casa, ajudar o próximo foi uma das mais importantes e dela fiz e continuo fazendo uso, pela estrada da vida. Fazer o bem sem olhar a quem, diz o dito. Faça-o sempre, mas nunca espere (e jamais cobre) gratidão. Cumprir a nossa parte é o que importa. É assim que devemos ser e fazer. Mas, no fundo, bem lá no fundo, a gente sente quando aqueles a quem estendemos a mão, externando falsa amizade, se tornem algozes gratuitos. Teriam inveja? Seriam incapazes? Ou pobreza de ou em espírito?

De repente, acontecem essas tristezas ao longo desta via crucis. Fazemos de conta que não, mas dói, sim, quando os "joões-ninguém" que você ajudou a colocar em cena o agradecem com o punhal de Brutus. Brutal canalhice. 

Ainda assim, felizmente, o humano do nosso ser nos impede que não deixemos de estender a mão da ajuda. Dos coitados apiedemo-nos, ainda que ingratos, detratores, pérfidos. E os ajudemos de novo, até que entendam e aprendam que só não se torna bom caráter os que, como eles, querem subir na vida a qualquer custo, sem se importar com os meios, traindo amigos, vendendo a alma. Aproveitemos para lembrá-los de que a escada que sobe é a mesma que desce e que o juiz dos nossos atos está lá em cima, atento. 

P.S. - "Nenhum mentiroso tem uma memória suficientemente boa para ser um mentiroso de êxito" (Abraham Lincoln)

14 de abr de 2019

Catanduva, rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar

Catanduva, 1968, a Cidade Feitiço.
Paz e qualidade de vida
Catanduva, 1968. Comecinho do ano. Uma manhã de sol e de gostosa brisa. Desci do ônibus na praça da Matriz de São Domingos. Andei umas três quadras para chegar ao meu destino: Rua Amazonas, 333. Painel luminoso em cima: Emissora A Voz de Catanduva.


Mais que uma emissora de rádio, uma família
Eu chegava de São José do Rio Preto, da Rádio Independência. Alexandre Macedo, o subcomandante, havia me "emprestado". Júlio Cosi, o nosso comandante geral, havia terminado de montar A Voz e a transferido para as mãos catanduvenses dos meus futuros amigos Esmar Gabriel Aun, Angelin Cazellatto e João Alberto Caparroz. Trio maravilhoso.

Entrei no saguão da rádio. Fui recebido com largo sorriso por Sandra Mara Medrano, a querida Sandrinha, hoje Senhora Pedro Gonzalez, ele grande amigo que foi conquistar a pauliceia, primeiro, no departamento comercial do SBT e, depois, no da Rede Record, onde trabalhamos juntos num passado mais recente.

Sandrinha logo anunciou a minha presença ao diretor geral da rádio, Nelson Antônio Gonçalves, o NAG. "Até que enfim apareceu. Estou à sua espera faz uns três meses" - disse-me, logo substituindo a carranca por um largo sorriso. 

Apresentou-me ao seu diretor de programação, que viria a ser meu pai, irmão e amigo de todas as horas, Carlos Alberto Magalhães, uma das vozes mais lindas que já ouvi, e ao meu anfitrião, José Antônio Rosinha, o Zezo, que cuidou de arrumar a minha hospedagem, de me mostrar a cidade e a apresentar os meus companheiros de casa.

Álvaro Costa era o diretor comercial. Nelzo Bizarri, grande amigo, cuidava dos Recursos Humanos. Havia duas Lurdinhas: a discotecária, Lurdinha Bocchini, um doce de pessoa e que o casamento levou para Paulínia (alô, Sérgio, abraço), e a da programação comercial, que se casou com o Zezo (Maria de Lurdes Rosinha) e foi para a locução - voz feminina de encantar os ouvidos. São maravilhosos os seus áudios dos Evangelhos.

A nossa programação era bem popular. Santo Colin e Nhô Renato comandavam os programas sertanejos. Às 7, o Bom dia, trabalhador, com Álvaro Costa, seguido pelo programa do astrólogo Omar Cardoso (Bom dia, mas bom dia mesmo). Magalhães fazia a parada musical "13 às 13". Zezo era campeão de correspondência com o "Sua carta vale música".

Às 15, José Alfredo Luiz Jorge (que foi prefeito da cidade por duas vezes), tinha a sua "Festa de Arromba", para o público jovem, feito do saguão da rádio, sempre cheio de adolescentes. Além dos meus programas "Bom de brasa" (pela manhã) e "Juventude e Ternura" (da meia noite às duas da matina), tínhamos os programas do Douglas Vitório e da Marina Zancaner Britto, Miss Catanduva 1967 e que apresentava todos os dias, às 6 da tarde, o Encontro Social.   

Reforços foram contratados ao longo do tempo, dentre eles o Dionísio da Ponte, que fazia o "Madrugada na Taba", na Rádio Tupi; Ailor Barbosa, bom capixaba; Virgílio Brito, que eu trouxera da Rádio Assunção de Jales (trabalhamos juntos, antes, em Rio Preto; José Mário de Vitto, repórter, e Maurílio Vieira, locutor, editorialista, vozeirão e talento (foi vereador). Ele e de Vitto eram da nossa concorrente, Rádio Difusora. 

No esporte, juntamente com Sérgio Mesquita, eu produzia os programas esportivos, os apresentava, fazia reportagens e narrava jogos. O narrador titular, extraordinário, era o Nelson Antônio. Magalhães e Esmar eram os comentaristas. O tempo muda as coisas. Nelson foi embora, eu passei a narrar, José Alfredo foi promovido a comentarista. Foi quando lancei o Augusto (Guy) Quelhas, um jovem torcedor e ouvinte da rádio, como repórter de campo. Ficou bom demais. Virou narrador de primeira e passou pelas principais emissoras de São Paulo.
Em foto recente, em frente à Câmara de Catanduva:
o hoje saudoso Toninho Grandizolli, nosso discotecário,
eu e Augusto Quelhas, o Guy
O então patrão Esmar Gabriel Aun nos deixou. Havia transferido a rádio para João Alberto Caparroz, iniciando-se aí a fase de ouro da "Voz". Além dos jogos locais, transmitíamos clássicos paulistas e, principalmente, os jogos da seleção brasileira. Estivemos no Maracanã dezenas de vezes. Idem no Maracanãzinho, onde transmitíamos o Miss Brasil, evento que se tornou tradição na emissora, depois que, em 1968, a catanduvense Mariluce Facci foi eleita Miss São Paulo. 





Mariluce Facci,
Miss Catanduva, 
em traje típico,
simbolizando a
riqueza da região
e de São Paulo,
a terra dos
cafezais.
Mariluce Facci,
Miss São Paulo 1968
Não posso deixar de registrar os nossos operadores de áudio, todos talentosos. Dejair Augusto, hoje pizzaiollo em Pindorama, foi o pioneiro, juntamente com Marinho Merchiori, Ricardo Farah, Kiko Peres e o meu irmão/amigo Jota Machado, que, depois, ótimo locutor se fez. E o Helinho, responsável pelos transmissores. Também conosco ali dois grandes riopretenses, Miguel Carlo Adas e Pérgio Pinheiro, com quem havia trabalhado na Rádio Independência. Éramos uma família. João Alberto Caparroz o "pai". E que pai!


O compositor Jorge Costa, a Rainha do Carnaval 68,
Amália Marangoni e o fantástico Wilson Simonal
Há muito a se contar dos meus tempos na "Cidade Feitiço", a "Sorcerer City". Dos seus bailes no Clube de Tênis ou Clube dos 300. Dos seus carnavais de rua, com carros alegóricos e escolas de samba (soube que acabou o melhor carnaval do interior paulista). Dos tempos de Botafogo e Catanduva que, extintos, deram lugar ao Grêmio Esportivo Catanduvense, criado por José Marques Romero e do qual todos nós, da Voz, somos sócios fundadores. 

Catanduva da Rádio Difusora, dos queridos Lecy Pinotti, Wilton José, Pedro Gomes, Luiz Carlos Teixeira, João Elias (o saudoso Salim Muchiba, da escolinha do Professor Raimundo), Nhô Sabido, Álvaro Franklin, Luiz Alberto Dotti. Difusora que nos deu uma das mais lindas vozes do Brasil, pessoa maravilhosa e um dos profissionais mais conceituados do rádio brasileiro, Walker Blaz Canonici. Voz padrão da Bandeirantes por mais de 30 anos, é voz oficial da HBO.


Walker Blaz Canonici, voz oficial da HBO
no Brasil e América Laina
Catanduva do Tchau Bello, do Flórida Restaurante, dos cines Bandeirante e Tropical. Do Café Central, onde se sabia de tudo. Dos desfiles monumentais no aniversário da cidade, que é comemorado hoje. São 101 anos.

Catanduva do Padre Albino, que chegou à cidade em 1938, 14 dias após a sua emancipação. Prestou relevantes serviços, dedicando-se aos mais necessitados. Criou uma fundação com o seu nome, que é a mantenedora do principal hospital da cidade (Hospital Padre Albino) e da Faculdade de Medicina.


Abril de 1968: o Padre Albino recebe das mãos
do prefeito Borelli, o título de
Cidadão Benemérito de Catanduva

Catanduva, cidade feitiço, de lindas mulheres, de poesia, arte, talento. Saudade da sua estação ferroviária, quando os trens ainda transportavam pessoas. Rememoro as emoções vividas no Estádio Sílvio Salles. dos carnavais que transmitimos. Das enchentes do São Domingos, o rio que corta a cidade. Pretendo colocar em livro essa história. Há amigos que vieram depois e que ajudaram a escrever um pouco mais essa época de ouro. 


Catanduva hoje, sempre Cidade Feitiço
Beijos a Catanduva, pelos seus 101 anos. Que Deus a abençoe e aos catanduvenses, hospitaleiros e felizes. Amo esta cidade. Parafraseando Paulinho da Viola, o São Domingos passou em minha vida e o meu coração se deixou levar...  

12 de abr de 2019

Nem só os peixes morrem pela boca

Presidente Jair Bolsonaro (Foto: Adriano Machado/Reuters)
Temos alguém sentado no sólio, mas não temos governo. Ou, temos um presidente com um lema, mas sem plano. Temos o homem, mas não as ideias. O capitão vai mal. Parece que o apraz improvisar. Foi deputado sem conteúdo e mantém o estilo. Avisem-no: o silêncio é ouro. Vale, também, para os seus pimpolhos travessos. Todos andam falando demais, mas papai, como presidente, tem o dever de saber o que faz e o que diz. 

Pelo visto, lido e ouvido, a língua continua solta. Rememoremos algumas, en passant. Sobre a comemoração de 31 de março: "Se não conseguir governar, chamarei os militares". Esqueceu-se de que estamos na democracia, o voto põe, o voto tira.

Sobre o Holocausto: "Nós podemos perdoar, mas não podemos esquecer". Os judeus não gostaram. 

Sobre o nacional socialismo de Hitler: "O nazismo alemão foi um movimento de esquerda". Os tedescos o desancaram. Franceses, ingleses, poloneses e russos, idem.

Ontem, sobre os 80 tiros de soldados do Exército, resultando na morte de um músico, no Rio: "Houve um incidente". Com um tiro, poderia, sim, ser um incidente, mas com 80? Pegou mal. 

Sexta-feira, 12. Sobre o "desaumento" do diesel, sem imaginar o "desbronco" resultante do seu arroubo, disse o que todos já sabem: "Não sou economista. Já  falei que não entendo de economia". 

Não entende, mas mete o bedelho. Por conta do seu telefonema, suspendendo o reajuste no preço do diesel, a Bolsa de Valores de São Paulo fechou a sexta-feira em forte queda, pressionada pelo tombo das ações da Petrobras. Aquela ligaçãozinha, jogando para a plateia, fez a nossa estatal perder quase R$ 34 bilhões, em valor de mercado. 

O baque foi causado por preocupações sobre a liberdade operacional da nossa petrolífera, após a companhia ter voltado atrás sobre o aumento do preço do diesel. Na quinta-feira, após o fechamento do pregão, a Petrobras era avaliada em R$390,52 bilhões. Na sexta, R$34 bi a menos. Eis o que custou o telefonema do "prisa", que nada sabe de economia e que, antes de intervir, deveria ter consultado o seu ministro especialista na área.

Em reunião com o FMI e com o Banco Mundial, em Washington, Paulo Guedes tentou desconversar e saiu do cerco dos jornalistas dizendo ter "um silêncio ensurdecedor para os senhores". Admitiu, contudo, ser "uma inferência razoável, aparentemente", a afirmação de que Bolsonaro não o consultou sobre a intervenção na Petrobras. Foi um desastre.

O Brasil torce pelo presidente, pelo êxito do seu governo. Que ele queira acertar e que coloque, verdadeiramente, o país acima de tudo.

P. S. - A reforma da Previdência, nos moldes encaminhados, não vai passar. O ministro Paulo Guedes insiste e, segundo ele, o presidente Bolsonaro não é apaixonado pela proposta, mas entende a sua importância. 

11 de abr de 2019

A mão da fome e o copinho de "pelo amor de Deus"


Vade retro com as tevês. Viraram altares em louvor à desgraça. Não se vê notícias positivas, como se o mundo fosse um desfile de obras do diabo. Opus enim hominis. Não se fala em vida, só em morte. Os risos, ao que parece, foram lavados das bocas. Odes às lágrimas.

Não diferentes as revistas e jornais. Parece que coisas boas estão proibidas por aqui. Dizem que deus é brasileiro. Acho que esqueceram de avisá-lo. Perguntam onde ele estava, quando o temporal afogou o Rio. Por que não indagam isso aos donos das mãos que agridem a natureza? Pascácios.

E la nave va... Há, também por aqui (e a cidade está cheia), mãos estendidas a pedir. Assusta a recidiva da mendicância, problema social que se agrava a cada dia que passa, com o crescimento do mundo dos desesperançados.

Converso com eles. Deixaram de sonhar - os seus sonhos já nascem mortos. Não têm profissão. São os "faz tudo", lançados na selva da vida, sem lenço e sem documento. Junto, levam as suas mulheres e filhos. Sofrimento tamanho família. 

O desemprego cresce. Somos mais de 13 milhões no olho da rua. O presidente nega e a sua ministra de Agricultura diz que, quem tem pé de mangas no fundo do quintal, não passa fome. Caso explícito de flatulência mental. 

P. S. - Rio 80 tiros,10 soldados. Inocentes fuzilados. Soldados de guerra não são policiais. No mais, a ministra do pé de mangas não disse, mas, hoje, estamos com 152 tipos de agrotóxicos de volta às nossas lavouras. Deveriam inventar um para exterminar maus políticos.   

Goiânia, 1969. Tempos de Zezinho (Christian), Hipopota, Arthur Rezende...

Arthur Rezende, dono da audiência com o seu
A Juventude Comanda
Bye bye 1969. Não poderia sair sem registrar alguns pontos que marcaram a minha primeira passagem por este Goiás lindo de goianos maravilhosos. 

Lembrar os tempos da boate Cafuné, anexa ao Hotel Presidente, na Anhanguera, em frente ao Jóquei, frequentada pela alta. Ou da Monalisa, lá em Campinas, onde a noite era uma criança. Paraísos dos notívagos, em que a vida era vivida como se fosse o último dia.

Saudade das noites goianas no Chafariz, choperia instalada sobre a biblioteca municipal, na Praça Universitária. Era o novo point da cidade.

No esporte, além do futebol, havia o turfe. Os sábados eram movimentados no Hipódromo Ubirajara Ramos Caiado, na Lagoínha. Mas também havia a turma do pé na tábua. Em feriados importantes, motores em alta.  A partir de onde é a Praça Tamandaré, saiam da frente. A Assis Chateaubriand era terra pura - cascalho, na verdade -, onde os nossos "pequilotos" pisavam fundo, arrancando aplausos e transpirando emoção. O Minho era (e ainda é) o "doutor em motores". Ah, e havia o ronco de motos, também, by Paulo Boettcher, José Luiz Bueno et alii.. 

Não diferentes, as corridas de kart. As pistas eram delineadas por pneus, nas partes interiores da Praça Cívica. Ou na Praça Boaventura, na Vila Nova, onde também transmiti bons pegas. O superintendente dos Diários Associados, Francisco Braga Sobrinho, adorava esportes, e Roberto, seu filho mais velho, era um dos ases no kart. Outro dos nomes da turma do "pé na tábua" e que se consagrou como um dos maiores jornalistas brasileiros na área, é Fernando Campos, que escreveu a história desse esporte em Goiás, pelo seu Rodas & Motores.  

Goiânia, de onde o menino Zezinho saiu do Mundo é das Crianças, de Magda Santos, TV Anhanguera, para ser Christian, das balada internacionais e que se eterniza, com o irmão Ralf, no mundo da música sertaneja verdadeira. 

TV Anhanguera, onde Maurílio Netto editava o "Ladrão de Show", maionese musical feita com a colagem de trechos de programas musicais e humorísticos da Globo. Onde José Divino apresentava os noticiosos noturnos e Nickerson Filho fazia o esportivo "Dois na Bola", que vim a comandar bem depois, nos anos 80.


O uberlandense (e vilanovense) coronel Hipopota
TV Anhanguera, onde, aos sábados, o saudoso Maximiliano Carneiro, o Coronel Hipopota, enchia Goiânia de alegria com a sua "República Livre do Cerradão", musical com artistas locais, calouros e as suas lindas "hipopotecas", ao molde das chacretes de Abelardo Barbosa. Hipopota, chapelão aba larga, grande, porém menor do que o coração vilanovense que batia naquele peito.    

TV Anhanguera, onde Wladimir Araújo, Odair José, Ângelo Máximo, Wander Arantes, o Esquema 5 (conjunto musical do Mazinho/Lorimá Dionísio, Cesinha Canedo, Rodolfo e Cidinho), Os Zambis (do Júnior Câmara, Gulliver Leão, Nando Rocha Lima), dentre outros, agitavam o final das tardes de domingo, no A Juventude Comanda, do Arthur Rezende.   

Goiânia, 1969, ano em que Lindomar Castilho lançou o seu primeiro elepê em espanhol e Colombo Baiocchi criava a Caderneta de Poupança Inca. 

Goiânia cidade limpa. Felizes 300 mil habitantes. Mutirões fazem casas. Nasce a Vila Redenção. Íris prefeito. O Mutirama seria inaugurado no dia 22 de outubro. Dois dias antes, a ditadura vigente o cassou. Saudade daqueles dias de paz, cores e alegria. Bons tempos.

P. S. -  Para ouvir Zezinho (hoje Christian), em trenzinho triste, clique no link abaixo.

Zezinho (Christian), em Trenzinho triste.




10 de abr de 2019

Caiado, 100 dias de luta, sem dias de descanso

Caiado: destemor, garra e credibilidade na
reconstrução de Goiás

Caiado, 100 dias. A garra do leão branco na proteção do que sobrou da voracidade da alcateia insaciável. Foi um festim diabólico dos lupinos que fizeram de Goiás o paraíso para os seus desvarios e ambições, à custa do bolso de quem paga a conta: nós, goianos, evidente.

Eu o conheço e ao seu acalentado sonho: governar o Estado. Goiás é tudo para ele. Esperava dificuldades, não o caos, mas sabia que deixariam terra arrasada. A crônica da herança bandida estava anunciada, escrita pelos últimos atos do antecessor.

Caiado 100 dias. Sem dias de alegria plena, sem dias de descanso, sem dias de dinheiro em caixa. O que entra, sai. Os sacripantas banidos pelo voto, antes de pegar o caminho de casa, cuidaram de minar todo o terreno. Desprovidos de compromisso público, atolaram o Estado em dívidas, ao tempo em que davam sumiço ao dinheiro da criminosa venda da Celg.

O ex-governador José Eliton, destituído pelo voto, bem como o seu antecessor, também massacrado pelas urnas do Senado, devem explicações ao povo goiano que, nos últimos 20 anos, neles havia confiado. Mercadejaram interesses, atenderam patrocinadores eleitorais, solvendo tudo o que lhes deviam, nos moldes da velha lei da compensação.



Herança maldita: 11 milhões em caixa e um déficit de 3 bilhões e meio. A saúde caindo pelas tabelas. A educação, idem. Também a segurança e a infraestrutura. A folha, que deveria chegar, no máximo, a 60% da receita, estava maquiada, acima de 80, num artifício perigoso e criminoso, burlando normas e alardeando falso cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal - e, não à toa, se pede que o pessoal desapeado seja chamado a prestar contas.

Com o caixa arrombado, a ginástica que o governador Caiado faz dele exige esforço hercúleo. Hábil, tem articulado parcerias políticas com os prefeitos e estreitado laços com a União. Tem buscado saídas - uma delas a atração de investimentos externos, buscando reaquecer a economia do Estado e ampliar o mercado de trabalho. 


É um forte. Dispõe de lastro político, de credibilidade e de inegável conteúdo moral. Não corre da raia. Ao contrário dos que sucedeu, vai ao povo e, olho no olho, fala do governo com todos. Ele se fez político moldando-se pela transparência e austeridade, responsabilidade e compromisso público.

A verdade acima de tudo e de todos. Ele sempre foi assim. Acusam-no de direita radical - mas são da esquerda radical os que o combatem, duelo natural entre ideologias díspares. Tem defeitos, como todos nós temos, mas é um democrata, um liberal, extremamente intransigente quanto à moral e ao rigor dos bons costumes.

O seu sonho de governar Goiás se fez realidade. Uma brutal realidade, sabemos nós, mas ele já provou não temer o desafiador rodeio da vida. Aprendeu, desde cedo, a laçar, a montar e a domar dificuldades, a botar-lhes freno e sela, dispensando as esporas - elas não são necessárias aos que sabem o que faz.

Discordei e discordo dele na leitura de certas e raras situações e/ou circunstâncias. Fosse eu governador, por exemplo, teria pago a folha de dezembro, seguindo a ordem natural das coisas. A irresponsabilidade inaceitável é do antecessor, mas o devedor é o Estado e cabe a ele, como novo gestor do erário, resgatar pendências. 


Conheço muito bem o governador Ronaldo Caiado. Ele é cidadão político, uno, não um e outro. Como ele diz, "duas caras só a da marca da enxada". É um homem que dignifica a instituição. Acredito na pessoa dele, nos seus propósitos e confio que fará do seu sonho uma realidade construída com determinação e perseverança, tendo como argamassa o amor e o respeito a Goiás e aos goianos.

P.S. - Aos do governo lá de cima: o povo não quer saber de guerras ideológicas. Quer é saúde, habitação, emprego, segurança e, principalmente, educação, para que tenhamos um Brasil melhor. Apud Lobato, "um país se faz com homens e livros"
.

6 de abr de 2019

Reforma da Previdência sem referendo é golpe!


Parem de brigar por conta de 1964, onde houve, sim, golpe e ditadura. Preocupante - e a ele não estamos nos atentando - é o golpe que está se dando agora, em 2019, com a privatização do Estado. Infelizmente, a mídia, perdida em suas redações partidarizadas, não ouve a voz das ruas. Ouvisse, saberia que ao povo não interessa se nazismo é de direita ou esquerda, se Vélez e Damares existem ou não, et escambau. As pessoas querem saber onde estão os empregos, a assistência médica, a polícia para espantar os bandidos e detonar traficantes (cansou de esperar e viu que o Judiciário inexiste). E querem saber como vai ficar o fim da vida, pois também está em conluio um golpe fatal nas suas aposentadorias.

Em conluio e em curso. O presidente traz a reforma, o Congresso a aprova e ao povo restará apenas o papel de vítima nessa tragédia. Antes de qualquer ato reformista, é preciso que o Congresso estabeleça que A EMENDA DA REFORMA SÓ SERÁ PROMULGADA APÓS O SEU TEXTO FINAL SER SUBMETIDO A REFERENDO

Traduzindo: a reforma só vai valer se o povo for consultado, indo às urnas para dizer SIM  ou NÃO ao que esses senhores pretendem. Afinal, a emenda vai mexer com a vida de todos os brasileiros e os  nossos parlamentares, pela má fama de sua maioria, não têm legitimidade para representar o interesse de 200 milhões de brasileiros. Deputadinho e senadorzinho que trocam votos por liberação de emendas ou cargos públicos, não podem sequer se insinuar donos do direito de falar em nome dos seus eleitores. Ali, pesam, sim, os seus interesses, não os da Nação.

Os antevejo escalando a pirâmide das suas arrogâncias e alardeando os seus poderes: o que decidirmos estará feito e pronto. Avisemos aos senhores do escambo que não é assim, não. O povo é soberano e precisa ser consultado. É o dono do interresse e pelo direito dele ser ouvido nós temos que lutar. 

Mas, pelo que vemos, lemos e ouvimos, NINGUÉM está preocupado com isso. NINGUÉM. Nem a imprensa, que, aliás, não observa e, se o faz, não diz, que o nosso governo está sendo privatizado, que os nossos bancos oficiais estão sendo tirados do circuito, com o predomínio dos bancos privados em tudo etc. Já li sobre Bradesco Privatização FGTS - Petrobras, e, também, sobre o apetite dos não poucos bancos de capitalização, todos de olho na reforma da Previdência. 

Curiosamente, um deles é o BTG Pactual, que já atua no Chile, onde impuseram reforma similar à que pretendem aqui. Ainda curiosamente, boa parte dos canais a que assisto na TV tem exibido suas propagandas comerciais. Também curiosamente, este banco, que nasceu em 1983, foi fundado pelo hoje ministro de Economia e Fazenda, Paulo Roberto Nunes Guedes. 

P. S. - Privatizar, mas com transparência, sem dano ao essencial. Mas com transparência absoluta. E cabe alerta último aos nossos deputados e senadores: reforma previdenciária sem referendo é golpe. 

5 de abr de 2019

Todos e todas (e tchutchuca) é a vó!

A todos os que têm o (péssimo) hábito de dizer "boa noite a todos e a todas" uma breve observação: todos é um pronome substantivo indefinido e não um pronome de tratamento. É um pronome que substitui o nome. "Homens e mulheres saíram" = todos saíram. É usado no masculino plural, de forma neutra.

Esse "todos e todas" é produto de uma estupidez chamada "politicamente correto" -, como se o não uso de "todas" fosse uma forma de exclusão da mulher no contexto. Coisa de desocupados. Ou de políticos demagogos. Bom dia a todos e todas é crime gramatical.

Errado tanto quanto usar "todos e todas" é ter o trapalhão Vélez Rodrigues no Ministério da Educação. Insiste em dizer que não houve golpe em 1964 e anuncia que vai mandar mudar essa história nos livros didáticos. Não é cortando as orelhas de um burro que se tem um cavalo. É bom o presidente já ir pensando em outro ministro.

A falta de boas escolas e de professores valorizados, sabemos, é o problema maior. Só com esse binômio construímos cidadãos. Hoje, mães parem indivíduos que o Estado transforma em massa de manobra. Não estamos moldando ninguém, apenas colocamos em circulação números de CPFs e RGs. Esperar o quê de um país que investe apenas 6% do seu PIB em Educação (a Coréia do Sul aplica "apenas" 50%. Que inveja!).

Ligo a TV. O presidente está de volta. Para quem não soube da viagem dele, a coisa estaria do mesmo jeito. Com ou sem ele, c'est la même chose. O país continua a reboque de uma reforma previdenciária anunciada como a panacéia para todos os nossos males, mas que não sai do lugar. E não a aceitemos sem referendo popular. Congresso que usa balcão de negócios não tem legitimidade para decidir como deve ser o fim de vida de cada cidadão. Reforma sem referendo, jamais. 

Por causa da dita cuja, o tal "Tchutchuca" virou praga. Soube-se, agora, que seria velho apelido do ministro Guedes. Apelido odiado.  Explicada a reação: "tchutchuca é a mãe, a avó". Lembra-me as famosas "pegadinhas do Mução", personagem marcada pela irreverência, criada e vivida por Rodrigo Vieira Emerenciano, radialista e humorista potiguar (recomendável a felizes e bem-humorados como eu).

Óbvia a falta de respeito ao ministro, como autoridade e como pessoa, mas vivemos um presente onde o próprio presidente e filhos não são bons exemplos de conduta respeitosa e harmônica, nas redes sociais e relações humanas, inclusive. Essa apologia a moldes pitbulls só poderia, mesmo, resultar em sessões canejas de mordidas e ranger de dentes. 

Ad conclusam, Eliane Catanhêde havia antecipado, semana passada, a demissão do ministro Vélez, da Educação. Para desacreditá-la, o presidente adiou a decapitação, mas o patíbulo, agora, parece inevitável. A segunda-feira será o dia D.

P.S. - Estava em cartaz, mas foi retirado do Cinemax, por conta de protestos, o filme "1964 - o Brasil entre armas e livros". Trata-se de leitura diversa dos fatos acontecidos a partir de março, daquele ano. Pode ser visto no Youtube.

4 de abr de 2019

Por trás da fachada da reforma, governo privatiza em silêncio


Ligar tevê é entristecer. Nada que preste. Violência pura. Programas que propagam a banalização da vida. Balas perdidas, balas achadas em corpos inocentes. Nas páginas de política só há polícia. 

Nas ruas, um enorme ponto de interrogação: onde estamos? Há alguma coisa silenciosa trafegando pelos subterrâneos dessa ópera bufa encenada por atores principiantes, alguns nem tanto assim, mas todos a serviço de mesma causa: a retração da presença do Estado na economia, com a venda de ativos e de estatais de ponta. 

O presidente viaja e nem sentimos a sua falta. O Brasil é o mesmo, estando ou não aqui. Com a mídia debruçada sobre a reforma previdenciária e muito  mais preocupada com as gafes do clã (pai e filhos adoram pecar em conjunto) e coadjuvantes, o que de real acontece não chega aos olhos e ouvidos do público. 

Pelo que dizem os jornais, só depois que a reforma da Previdência quebrar a perna dos velhinhos do futuro é que o presidente se sentará no comando do país. Enquanto tal não se dá, Vélez, do MEC, continua sendo pauta negativa interna. Com a boca fechada, já estaria errado.

Para tornar o horizonte mais nebuloso, anuncia-se um revisionismo histórico, apagando a ditadura dos livros. Néscios. Não será cortando as orelhas de um burro que se terá um cavalo. No Congresso, trôpega, a reforma da Previdência não avança. Vira circo. 

Na Câmara, deputado abusa de prerrogativas em desrespeito a ministro. Brincadeiras geram memes. Molecagens rendem risos e fazem visíveis e risíveis as suas personagens. O ministro Guedes, incauto, caiu na armadilha. O "tchutchuca é a mãe, a avó" não ficou bem. Aprendeu a lição: com menino travesso não se brinca. O "bate boca" viraliza, "rouba" a atenção geral.   

Na mesma Câmara, a ministra Damares Alves, lá dos Direitos Humanos, foge pela porta dos fundos de restaurante, para não encarar alegadas vítimas da ditadura. Parafraseando a própria, menino veste azul, menina veste rosa e ministra veste responsabilidade, resolvendo problemas de frente, ao invés de fugir deles. 

Preocupante o cenário. O governo deve explicações a bolsonaristas e antípodas, sobre algumas decisões tomadas, silenciosamente, na área econômica. Explicar este Bradesco Fundo Mútuo de Privatização FGTS - Petrobras. Explicar por que, por exemplo, excluiu a Caixa Econômica Federal da gestão do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço? Por que reduziu de seis para três os representantes de empregados e empregadores no conselho curador do fundo?

Há muito que os bancos privados estão de olho nesta "mina de ouro". São 500 bilhões de reais em ativos e mais 100 bilhões em patrimônio líquido. O que o governo pretende, de fato, fazer com esse patrimônio que pertence ao trabalhador brasileiro? 

P.S. - O hoje ministro Paulo Guedes, ainda na campanha, falava em conseguir R$1 trilhão com a venda de ativos do governo e com as privatizações. Transparência, senhores. Transparência.

1 de abr de 2019

1969, o ano que (aqui, ainda) não terminou



Dizem que recordar é viver. Então, vivamos. Falei aqui das coisas de 1969, o ano em que descobri Goiás, mas não fui a detalhes, particularidades. Vivi e vi coisas muito boas por aqui, terra maravilhosa e povo hospitaleiro. Como dizem os nativos, no Goiás tudo é bom demais! E é.

Morei na pensão do Domineu, na Paranaíba, em frente à igreja Coração de Maria. Depois, me mudei para a rua 7, pensão da Dona Fádua, minha mãe por adoção. Saudade da feijoada dela. Querida Dona Fádua, mãe do Zé e da Marilene. Deus a levou.

Naquela época, ainda não existiam comerciais gravados para a TV. No rádio, sem problema, jingles e spots. Na televisão, os comerciais eram feitos ao vivo. O Novo Mundo, por exemplo, para fazer a propaganda de suas lojas, mandava lá para os estúdios os produtos a serem anunciados - camas, colchões, sofás, fogões, geladeiras etc. Praticamente, tudo o que uma casa precisa.  

Na hora do comercial, câmeras ao vivo e as "garotas propaganda" entravam em cena com o texto na ponta da língua. Dificilmente erravam. Tinham simpatia e empatia. Sabiam dar o recado. Marília, Hilda, Vanilda, Ivone, Cristiane, Terezinha... E eram pessoas maravilhosas. Uma delas, não citada ali, eu a levei para a TV Brasil Central, em 1977. 


Ângela Rímoli,: o sorriso é o mesmo.
Só os cabelos mudaram
A TBC havia contratado, para cuidar da programação e produção locais, o Íris Carlos Freitas, professor da UFG, Aquiles Tenuta, que já havia feito a Gincana Estudantil na TV Goiânia, e o carioca Cid Macrini, egresso da TV Rio e com passagens pela Excelsior e Tupi. Os três estavam empenhados na definição de programas e precisavam de apresentadora para um deles - Carrossel. Sugeri Ângela Rímoli, a quem conheci, quando ela fazia os comerciais ao vivo na televisão. Veio, viu e venceu.

A cidade era calma. Tinha uns três cinemas. Eu frequentava o Casablanca, na Rua 8, que passava filmes de verdade. Foi ali que vi a beleza desnuda de Jane Fonda, na antológica abertura do filme Barbarella, onde, num ambiente sem gravidade, ela faz sensual striptease. Quer assistir? Clique aí em cima do nome dela.

JANE FONDA

Foi um auê. Estávamos em 1969, o Brasil, historicamente, ultraconservador, principalmente fora do eixo Rio-São Paulo. Lá perto de casa, na igreja vizinha, o padre e as beatas acenderam todas as velas. Vade retro. Ah se soubessem o que anda acontecendo hoje... Golden shower... Parada Gay...  Teriam um enfarte. 

Mudando de campo. Naquele ano, o futebol tinha o Vila embalado. A sede era na Rua 8, em cima do Zé Latinhas, onde também funcionava a Rádio Independência, Edgard Mendes de Brito, o Gazinho, era o presidente. Eu gostava de papear com o Onésio Brasileiro Alvarenga, apaixonado pelo Tigrão. Cigarrinho de palha, sempre sorridente, vivia para a família e o seu Vila do coração. 

Era, à época, o melhor time. O Goiás, treinado por Tomazinho (irmão do Paulo Gonçalves), estava começando a se arrumar. Hailê Pinheiro cuidou disso. Seria um bom governante: planeja para o futuro. Ficou de olho no campeonato. O Goiás terminou em terceiro,  com 23 pontos - dois a menos do que o CRAC e a 3 pontos do Vila campeão. 

O Atlético havia investido pouco, mas trouxe dois craques de primeira: Dadi, meio campista, e Paghetti, ponta-de-lança. E, depois, trouxe Raimundinho. Zuíno, o grande ribeiropretano, depois do sucesso no Botafogo, ajudou o Dragão a crescer. Mas o time não foi bem. Terminou em sexto, com 19 pontos e só ficou à frente do Goiânia pelo saldo de gols. 

O Goiânia, campeão de 68, presidido por Sérgio Dias Guimarães, foi cuidar do patrimônio: construiu a Vila Olímpica, que passou a ser o orgulho dos alvinegros. Mas o time foi mal. Dos da capital, foi o pior, terminou em sétimo, com 19 pontos, atrás do Atlético pelo saldo de gols.  

O Vila campeão tinha um timaço, onde Guilherme era o homem-gol, mas era fantástico o futebol da dupla Zé Geraldo e Mosca e, show à parte, os dribles desconcertantes e o chute fortíssimo do ponta Serginho - ele era do Catanduva e que chegou a Goiânia, à minha procura, com a chuteira debaixo do braço. Pedi ao amigo João Carneiro que lhe desse uma chance. "Arrebentou". 

Silenciosamente, Hailê, tempos depois, tirou do bolso o caderninho e levou para a Serrinha: Tuíra, o maestro do Goiânia; Serginho, o desconcertante ponta do Vila; e Paghetti e Raimundinho, duas das garras importantes do Dragão. Grande dirigente. Merece todas as homenagens e mais do que nome de estádio. O Goiás e Goiás devem muito a ele. 

Ainda há muito a se contar daquele distante 1969. Coisas da Rádio Anhanguera, por exemplo. Miguel Mendes era o diretor. Nos tornamos amigos eu estava sempre por lá. Turma boa que só. Jackson Abrão era a voz do noticioso "O Bandeirante no Ar". Jurandir Santos, baita narrador esportivo da equipe ABC, do Baltazar, também falava de (boa) música no seu "Chá das 5". Na TV do seu Jaime, os jovens Arthur Rezende e Wladmir Araújo apresentavam "A Juventude Comanda". Sucesso. Falaremos disso logo logo.

P.S. - Pena o Estádio Serra Dourada estar na UTI e não termos como sediar, aqui, uma das chaves da Copa América. Seria bom para os hotéis, restaurantes, comércio, aquecendo a nossa economia. Infelizmente... 

31 de mar de 2019

1969, o ano em que descobri Goiás

O centro de Goiânia visto da Praça Universitária, 1969
Goiânia, 1969. A cidade tinha 300 mil habitantes e qualidade de vida. Íris Rezende era o prefeito. Ruas limpas. Nas calçadas, havia um cesto de lixo a cada 20 metros. Ai de quem jogasse papel ou qualquer coisa na rua. Os próprios goianienses fiscalizavam. Íris cultivou em cada um o "eu amo Goiânia". 

Vindo de São Paulo, cheguei à cidade um pouco antes de o General-presidente Artur da Costa e Silva editar, em 26 de fevereiro, o Ato Institucional 07. O chamado AI-7 suspendia as eleições para governador e prefeito. 

Goiânia eis-me aqui. A minha meta primeira era trabalhar na Rádio Brasil Central. Eu a ouvia diariamente. Eram possantes as suas ondas curtas e tropical, de alcance mundial. E com fé em Deus e transpirando ansiedade, lá fui eu para a Vila Nova, onde ficavam os seus estúdios. Coração batendo ao ritmo da nervosa expectativa e da emoção. 

Subi as escadas. Recebeu-me Gonçalves Lima, redator e plantão esportivo da Equipe ABC, comandada por Baltazar de Castro. O "Gonça" foi o meu primeiro amigo. Cheguei sem emprego e sem nada. Ele me deu cama e comida e isso não há dinheiro que pague. Creio que estará lendo essas linhas. Receba por elas, meu amigo, mais uma vez, a minha eterna gratidão. 

Como não conheciam o meu trabalho, foi com ele, e também com o saudoso e grande amigo Caetano Beghelli, que apresentei alguns programas esportivos. Sempre otimista, estava certo de que ali ficaria. Alegria efêmera. "Você é muito bom, Bordoni, mas não tenho verba para contratá-lo. Sinto muito"- disse-me Baltazar, outra alma boníssima e que muito fez por Goiás.

O não foi um baque. No futebol, diríamos que joguei bem, mas não fui convocado. Frustrei-me por não realizar o meu "sonho RBC", mas o Gonça me convenceu a ficar, que persistisse, pois outras chances viriam. E tal se deu. Foi ele quem me indicou ao Draulas Vaz. Começava ali o meu amor por Goiás.  
Draulas Vaz

Draulas comandava as áreas de esportes dos Diários Associados: a Equipe 1.320, na Rádio Clube (hoje, Sagres 730), a programação esportiva da TV Goiânia (hoje, Goyá/Record) e a editoria de esportes da Folha de Goiaz.

A Folha foi o primeiro jornal goiano a usar a impressão fria (offset), aposentando os tipos gráficos ainda em uso, à época, pelo O Popular.  Luiz de Carvalho, editor-chefe. Na redação, Altamir Vieira (chefe de reportagem), Raul de Assis, José Domingos de Brito, Sebastião Campos, David Araújo et alii. O amigo Wilson Silvestre, com quem também trabalhei no Diário da Manhã, chefiava a diagramação.

José de Oliveira dirigia a Rádio Clube. Eu produzia os programas de esportes - A Bola é Nossa, às 11h30, e A Bola Continua Conosco, às 18h30. José Calazans, hoje na RBC, dividia comigo a apresentação. Na verdade, eu fazia de tudo. Narrava, comentava, fazia reportagens.   

A Equipe 1.320 era um time de primeira. Habib Issa, Jadir Santos, Calazans e Manoel de Oliveira eram os narradores. Além do Draulas, tínhamos os comentaristas Carlos Alberto Sáfadi (fomos juntos para a Folha de S.Paulo), Amir Sabag e Nei Fernandes (Nei que fora técnico campeão com o Goiânia, em 1968, timaço com os fantásticos Chico, Silvinho e Tuíra no meio de campo). 

Os nossos repórteres eram Levy de Assis, Edson Costa, Ezer de Mello e o então iniciante e hoje consagrado comentarista, Evandro Gomes, que, à época, também trabalhava na Casa Carajá, vendendo materiais de caça e pesca. O professor Reid Duarte cuidava do nosso plantão esportivo.


Levi de Assis
TV Goiânia, emissora da Rede Tupi. Iniciei ali o meu aprendizado em televisão. Passei a apresentar "O 4 é Bom de Bola". Lia as notícias e o Draulas as comentava. Os Diários Associados ficavam na Avenida Goiás, entre a 1 a 2, onde hoje temos uma agência da Caixa Federal. 

Bem em frente ao prédio havia um recuo acentuado da calçada - a chamada Pracinha dos Diários, de onde eu transmitia lutas de boxe, promovidas pelo Hugo Nakamura, e, também o "telecatch" - as lutas livres da TV Excelsior do Rio, trazidas para cá por Luiz Ricci, nosso diretor comercial. O público se acotovelava. Havia crianças demais.  Todos queiram ver os famosos Ted Boy Marino, Fantomas, Gran Caruso, Homem Montanha, Índio, La Múmia, Moretto, Tigre Paraguaio e mais duas dezenas de lutadores.

Alberto Poli era o nosso diretor artístico. Foi ótima a minha escola. Graças às lições do Luiz Carlos Santos, o Lulu, mais tarde diretor comercial da TV Goyá e Record, e do Gregório Camargo, câmeras de primeira grandeza, eu aprendi a lidar com essa caixinha cheia de fios e telas. 

Com tais mestres, em julho, usando um link de fabricação caseira (saudade de José Carneiro Pimenta), transmitimos jogos de futebol, futebol de salão, voleibol, basquete e provas de atletismo e natação, nos XX Jogos Universitários Brasileiros, sediados em Goiânia. Também fizemos ao vivo, em 12 de julho, a inauguração da Praça Universitária. Tempo em que César Sebba era a nossa estrela maior na bola-ao-cesto e que teve lugar merecido na seleção nacional. 


1969, ano em que o Vila, com 26 pontos, foi campeão. CRAC o vice, com 25 pontos e seu centroavante Toninho Índio o artilheiro, com 14 gols. Goiás, o terceiro. Atlético, o sexto e o meu Goiânia, campeão do ano anterior, em sétimo. 
   
Zuenir Ventura diz, em livro, que 1968 foi o ano que não terminou. 1969 não foi um ano qualquer. Os militares, que haviam tomado o poder, em 1964, endureciam o jogo. E o arrocho foi muito maior a partir de 31 de agosto, após o afastamento do presidente Costa e Silva, seriamente adoentado. Com o vazio do cargo, assume o comando do país uma junta governativa formada pelos ministros do Exército (Lira Tavares), Marinha (Augusto Rademaker) e Aeronáutica (Mário Souza Mello) - um trio, verdadeiramente, parada dura. 

18 de setembro, após os movimentos de esquerda terem sequestrado o embaixador estadunidense no Brasil, Charles Elbrick, a Junta, em repressão total aos opositores ao regime, cria a rigorosa Lei de Segurança Nacional. Em 15 de outubro, edita o Ato Institucional 16, reabrindo o Congresso Nacional e promulgando, dois dias depois, uma nova Constituição.


Nesse ínterim, Goiânia vivia a efervescência dos movimentos estudantis, que fizeram da Praça Universitária o seu centro de resistência. Embora nunca tenha insuflado qualquer ação antagônica, o prefeito Íris Rezende preocupava os militares com o seu carisma e liderança. Às sextas, ele ia à TV e pedia aos goianienses participação nos seus mutirões. Milhares acorriam aos seus chamados. 

Ante o prenúncio da volta das eleições diretas para os governos estaduais, em 1970, o "homem dos mutirões" estava em campanha aberta para governador. "Bom pra 70" era o seu slogan. Sonho abortado. Em 20 de outubro, dois dias antes de inaugurar o Parque Mutirama e a quatro dias do aniversário da Capital, Íris Rezende é cassado. A cidade chorou. 

Nomeado prefeito de Goiânia, Leonino Caiado começa por mandar perdoar multas e correções monetárias de contribuintes inadimplentes e, também, da salgada taxa de pavimentação asfáltica que os goianienses tinham que pagar a bancos privados, que haviam financiado as obras. 

24 de outubro. Goiânia faz aniversário. No dia seguinte, o general Emílio Garrastazu é guindado à Presidência da República. Dez dias depois, Carlos Marighella, líder da Aliança Libertadora Nacional, é morto a tiros por agentes do DOPS, em São Paulo. O ano termina com uma nota de alegria. Em 19 de novembro, Pelé marcava o seu milésimo gol, na vitória do Santos sobre o Vasco da Gama, por 2 a 1, no Maracanã. 


Ledes Gonçalves
Nessa época, eu também apresentava com Ribeiro Júnior, Folha de Goiaz na TV, telejornal que, durante bom tempo, teve a comandá-lo, na bancada, os queridos amigos Ledes Gonçalvez e Glória Drummond. Só falávamos amenidades. Não havia matérias sonoras, só filmes negativos mudos. O único ditador em que podíamos bater, sem medo da censura ou da polícia, era Nicolae Ceausescu, o terror da Romênia e inspirador de Hitler.

Apesar de todos os medos e apreensões, Goiânia, em 1969, era uma cidade maravilhosa, bem cuidada, mais gente do que carros, gostosa para se viver. Ventos, sol e flores e onde a primavera tinha doze meses.     

P.S. - Aplauso. O presidente Jair Bolsonaro desiste de transferir embaixada brasileira para Jerusalém e, no lugar, abre um escritório para promoção do comércio, investimento, tecnologia e inovação. Em compensação, insiste em quebrar tradição diplomática e visitará o Muro das Lamentações com Netanyahu. Que depois não lamente se perder o forte mercado árabe, um dos maiores importadores de produtos brasileiros, acentuadamente bem maior do que Israel.