26 de mar. de 2019

O filme de Bolsonaro e a ópera tragicômica de Lula


O presidente Bolsonaro e Michelle foram
assistir ao filme "Superação, o milagre da fé".
O sol nasce e as mãos e bocas que trafegam em quatro ou duas rodas atiram raios raivosos com pitadas fortes de intolerância. Parece que todos acordaram com hálitos de ódio. Precisam aprender a cuidar da assepsia oral, pois as mães alheias não merecem os títulos nada nobres anunciados por canejos ambulantes.

Na vinda para o trabalho, assustadores os olhares fulminantes e ensurdecedoras as buzinas dos que querem ser donos das ruas, como se o da frente fosse o culpado pelo rotineiro stop and go em que se transformou o trânsito maluco desta - infelizmente - cidade grande. Aqui nesta Goiânia, há mais carros do que gente e eles são mais educados do que os seus condutores.

Mudando o dial, acesso as minhas fontes em Brasília. Há fartura de crises de todos os tamanhos, produtos da megalomania extremada do clã do presidente. Arrumar confusão é com eles mesmos, uma espécie de quarteto fantástico às avessas. Passaram a tarde distribuindo bordoadas verbais.

Mais calmo estava o patriarca, depois que, de mãos dadas com a sua Michelle, foi ao cinema, pela manhã. Deveria fazê-lo diariamente, melhor do que ir aos tuítes confundir espinafre de caçarolinha com espingarda de caçar rolinha. Seria de bom alvitre se pudesse arrumar um tempinho para governar o Brasil.

O Centrão já avisa que a reforma, nos termos insistidos, não passa. E vai além: a PEC da Previdência, lavrada pelo governo Temer, será devolvida à ópera. Entendem os centristas que ela é mais palatável.

O ministro Paulo Guedes, que iria à Câmara falar com os deputados, pisou no freio e manteve-se na garagem da cautela. Ainda que se alardeie ter a PEC 67% dos deputados em apoio, o governo sabe que a sua reforma não passa sem que o presidente (ou preposto) compareça ao balcão de negócios. Óbvio ululante. Sendo mais da metade da Casa pró-pacote, por que então não o aprovam?

Ad conclusam, tragicômica a desastrada a chicana dos advogados lulistas, ao pleitearem, junto ao STJ, que os processos de corrupção e lavagem de dinheiro, que levaram o ex-presidente ao xadrez, sejam, de pronto, revertidos e julgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, foro para tais crimes, segundo entendimento do STF, semana passada.

Ao concordar com o expediente proposto pelos seus gladiadores jurídicos, Lula, que até então se dizia preso político e perseguido pela partidarização do Judiciário, simplesmente assina a confissão de delitos até então negados.

P.S. - Até o momento em que escrevia essas mal-traçadas linhas, nada de CPI da Lava Toga ter sinal verde no Senado. Mais fácil a red light. Por dois motivos: fere o Regimento Interno das Casa (art. 146: "Não se admite CPI sobre matérias pertinentes às atribuições do Poder Judiciário) e, também, a Constituição Federal (art. 71: o Senado só tem poderes para auditar aspectos administrativos do Judiciário, não podendo, jamais, questionar o que ele julga).

25 de mar. de 2019

Sapos, piratas, moleques...

A semana começa com ares de liberdade para Lula, ainda que boa parte do povo Brasil queira ver o ex-sapo barbudo tomando café de canequinha por um bom tempo. Não se trata de mérito da turminha do Lula Livre, mas de filigrana jurídica que permeia as nossas duas maiores Cortes de justiça. 

Pelo balançar das redes sociais, o bloco dos capas pretas que se cuidem no decisum. O STF, antevejo, deve derrubar a sua própria jurisprudência e coibir o início de cumprimento de pena após a segunda instância. De sua vez, o STJ, atendendo à moção da defesa, pode aprovar a redução de pena do ex-presidente. Aí, ao invés da cobra, o sapo vai fumar.


Bolsomaia: o Brasil não pode ficar à mercê de arroubos
e vaidades pueris
Ainda no balançar das redes, os presidentes Jair Bolsonaro, da República, e Rodrigo Maia, da Câmara dos Deputados, voltam aos tempos de adolescência e, tal qual pentelhos incorrigíveis, protagonizam ridículo bate-barba, mostrando aos brasileiros e ao mundo que continuamos minúsculos, em matéria de prática política e, principalmente, de urbanidade. O Brasil merece respeito de suas autoridades e essa molecagem explícita aprofunda ainda mais a nossa decepção e a nossa desconfiança em relação aos que se revelam pseudolíderes.

Na esteira da semana, a boa notícia é a de que a reforma previdenciária começa a ser apreciada pela Comissão de Constituição e Justiça. A realidade nos mostra que o governo está a reboque dessa sua única proposta - e aí reside o erro do presidente, pois a vida do país carece, imediatamente, de outras ações. A economia está parada, os investimentos externos foram reduzidos, o dólar dispara (está a R$4,00) e o desemprego ultrapassa os 13 milhões de brasileiros.

A reforma da Previdência é necessária? É. Mas há pontos importantes a serem corrigidos, a começar pela idade mínima para se aposentar. Querer comparar a nossa expectativa de vida com a de países da Europa, que também fizeram tal reforma, é cálculo sem base. Aqui, a nossa média é 76 anos. Na Itália, por exemplo, 10 anos a mais.

Mas, o ponto mais importante da reforma: antes de ser promulgada, que a emenda seja submetida a um referendo. A mudança de regras mexe diretamente na vida dos cidadãos e eles devem ser ouvidos. Isso é democracia - na mais completa tradução do termo: governo em que o povo exerce a soberania.

Mobilização popular se faz necessária. Os nossos deputados e senadores, onde a maioria troca voto por benesses do governo, não têm legitimidade para decidir o que é do interesse de todos os brasileiros. O futuro de quem ralou na vida não pode ser mercadoria em balcão de negócios.

P.S. - A Rússia despejou soldados e armamentos em Caracas. Ação preventiva, depois das conversações de Trump com Bolsonaro, sobre possibilidade de intervenção no país vizinho. Há um barril de pólvora na nossa vizinhança.    

23 de mar. de 2019

Embalos de sábado à noite

Os poderes em baixa. Vídeo mostra o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, citado em "molha bolso" com a OAS.


Em Porto Alegre, em praça pública, espetacular queima de bonecos representando os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal.

Avisem ao Maia que o trabalho dignifica o homem

Moro e o Brasil têm pressa. Maia, não. Nenhuma
Ficamos todos atentos apenas aos erros da Corte (quem manda serem gritantes!), que não estamos nos atendo ao que está orbitando em torno do Brasil com urgência - e aqui cabe a atenção devida ao pacote anticrime do ministro Sérgio Moro. Uma ação prioritária para quem governa e deve respostas aos cidadãos não pode ficar ao sabor das dileções de presidente de Câmara de Deputados ou de quem quer que seja. Não porque seja lema do instalado, mas o Brasil está acima de tudo.

A violência campeia, a bandidagem migra país afora, molecotes vítimas das escolas virtuais de violência cometem barbáries contra próprios amigos de colégio, bandidos assaltam, matam, a droga impera e nós estamos presos em casa, pois o Estado tem se mostrado impotente perante o crime. Vivemos na pátria do medo.

Moro açoda Maia, porque este também é servidor público e este, ao se sentar sobre o que é de urgência, negligencia e mantém sob risco a incolumidade de quem tem o dever de bem representar. Demora injustificável. Havendo qualquer discrepância no pacote do ministro, que o Parlamento a corrija. Se a lei não é boa, que a melhorem. Estão lá para isso. O que não se aceita é crivo pessoal sobre o que pode ou deve ou não ter caráter de urgência.

É preciso sacudir o Parlamento. O país não pode ficar a reboque de vaidades, veleidades e de apegos ao poder. É obrigação do legislador prover o Estado de dispositivos que lhe permitam cuidar dos interesses dos seus cidadãos. 

Maia deveria ler sobre os maias e aprender que não se pode ter tudo sob controle, pois o mundo não depende só dele. Ah, e que nada é pessoal e que todos devemos fazer o máximo esforço, lutar até à exaustão, pois a causa é de todos. E que devemos ser impecáveis com as nossas próprias palavras, para haver coerência entre o que pensamos e o que dizemos.

Fica a lição. De graça.

P.S. - "A arrogância vem antes da queda". (provérbio alemão) 

A vaquinha eletrônica e o menino travesso



Um internauta muito espirituoso decidiu criar uma "vaquinha" virtual a fim de arrecadar dinheiro para a compra de um videogame para o filho do presidente Jair Bolsonaro e vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (PSC). Iniciada nessa sexta-feira (22/3), a campanha já havia arrecadado, até a última atualização, às 16h, R$ 375. A meta é R$ 1 mil.

"Ajudem a reunirmos recursos para comprarmos um Playstation para o Carlos Bolsonaro. Assim, ele ocupa o tempo brincando e para de ficar postando coisas impertinentes nas redes sociais", diz o texto da campanha.

De acordo com o "cowboy", caso a meta seja atingida e Carlos não aceite o "presente", o valor arrecadado será doado à Santa Casa de Misericórdia do Rio. 

A "vaquinha" surge um dia depois de Carlos, que tem 36 anos, causar um novo mal-estar entre o governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, e aliados. Na quinta-feira passada, o vereador publicou resposta do ministro Sérgio Moro à decisão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de deixar a apreciação do pacote anticrime em segundo plano. 

P.S. - Ruim por ser do clã Bolsonaro, mas que Rodrigo Maia merece críticas, não há dúvida. O Brasil precisa da medida, corrigida, melhorada, sei lá, mas precisa. 

O perigo de repetir o passado

Batalha na Guerra do Paraguai: matança encomendada
O capitão precisa tomar cuidado com a mendacidade. Não cai bem, a quem se anunciou espetáculo de grandeza, se revelar, abertas as cortinas da realidade, ópera bufa. Do último domingo a hoje, em meio a alguns importantes acertos - vide o ajuste do Brasil nos mares da OCDE, a sua inclusão na OTAN (Organização do tratado do Atlântico Norte) -, o nosso presidente tem surfado em pantomimas, estultices e ejaculação de lorotas.

A porta aberta aos estadunidenses, ainda que sem reciprocidade, atrai o turismo, mas não só de lá. Canadá, Japão e Austrália também gozarão do "mi casa, su casa", como diriam os irmãos mexicanos, tão duramente maltratados por El Capitán, em sua defesa do muro da vergonha.

Não se tem, ainda, a completa tradução do real conteúdo do "Pacto Donald" firmado com o nosso "presidente de honra" made in USA. O "imbróglio Venezuela", por tática de ambos os estrategos, está sendo tratado como segredo de Estado. Maduro está podre, mas querem derrubá-lo já. Seremos cabo de chicote, pelo que se depreende do servilismo em elevado grau, explícito e constrangedor.

A primeira vez que nos prestamos a tal calhordice se deu quando a Inglaterra financiou a Tríplice Aliança - Brasil, Argentina e Uruguai -, para destruir o Paraguai. Os britânicos, com a sua revolução industrial, abasteciam o ocidente, menos o sul da América, onde o Paraguai, governado por Solano López, era a grande potência econômica.

Como os nossos livros de história são omissos em grande parte dos fatos, contemos que os paraguaios tinham siderurgia, fundições, estaleiros, forte indústria têxtil, ferrovias etc. Abasteciam o Cone Sul. Financiados pelos ingleses, conluiados com argentinos e uruguaios, nós os destruímos. Esse Paraguai que aí está é culpa nossa.

Pauta Venezuela. Será que vamos nos prestar novamente ao papel de instrumento em prol de interesses de terceiros? 


Presidente, resolvamos, primeiro, os nossos problemas, que são muitos. Acelere. O Brasil precisa que o senhor acerte. e tem pressa.

P.S. - O nosso capitão precisa domar os seus pitbulls. O Brasil não é o quintal de condomínio e muito menos game para filhinhos mal educados, que se acham acima de tudo e de todos, só porque papai é presidente. Dê um açaimo a cada.

22 de mar. de 2019

Os filhos do egoísmo e o homem de Neandertal


Difícil o viver hodierno. Ou seria "ódierno"? Já não somos, estamos humanos, numa transição do racional para o irracional. Involução da espécie, darwinismo ao avesso. Os olhos despejam olhares de insatisfação, de impaciência, de repúdio, de intolerância. E as palavras são isso, explicitamente.

Amor ao próximo só quando nos olhamos no espelho. Mãos estendidas para receber,  nunca para dar. Pela escala de valores, primeiro, o celular; depois, o resto. Vivemos a era do culto ao ego. Myself. Selfies.

Vida privada passa a ser pública. A face que antes guardava os nossos segredos e vontades, hoje é janela escancarada. É face...book. Vidas expostas. Corpos e almas desnudas.

Os nossos valores são medidos pelos tamanhos de bundas, peitos e pênis. Banalização do sexo, vulgarização de atributos. Os segredos por trás dos decotes e das saias viraram domínios públicos. Os valores morais, a ética e os bons costumes foram remetidos ao período jurássico. Coisas de  demodês, neste universo anômico, onde pais e filhos apenas inspiraram o nome de velha revista.

Não, este texto não tem nada a ver com misoneísmo - rejeição ao novo. Tem a ver com saudosismo, com os tempos em que as famílias eram de verdade e não apenas verbete de dicionário. Época em que as pessoas se respeitavam e se amavam. Época em que éramos humanos, em que éramos felizes e sabíamos. 

Me perdoem se estou sendo neandertalesco, mas o mundo, antes, era bem melhor.

P.S. - Hoje, pais e filhos são estranhos sob um mesmo teto. Quase não se comunicam. Egocêntricos. Todos cultuando celulares, os deuses do seu individualismo.

19 de mar. de 2019

O pai da bossa na fossa. João penhorado. Mundo desafinado

João Gilberto e Tom Jobim: quando a bossa nova
começou
João Gilberto, baiano de Juazeiro. Sem voz. Afinado. Violão na batida que o mundo parou para ouvir. Bossa. É bossa nova. Nova música, novo Brasil. JK. É Brasil lá fora. João e Tom. Tome música. Nova Iorque, Carnegie Hall, o templo sagrado dos mais mais. Além de ambos, a primeira brasileira a ganhar o Grammy: Astrud, que virou Gilberto. The girl from Ipanema se fez mundo. Fechando o quarteto, o sax do monumental Stan Getz.

João, o Gilberto, pai da Bebel e da bossa nova, que cantou em todos os cantos do mundo, escolheu reclusão voluntária. 87 anos. Não quer ver ninguém. Passem as coisas a ele por debaixo da porta.

Hoje, 19, passaram também um papel. A 25a. Vara Cível do Rio penhorou R$79.692,00 das suas contas bancárias. Era fiador do contrato de aluguel de um imóvel no Leblon, área nobre do Rio, onde morava uma ex-namorada, inadimplente. Despejada. 

João de tantas mulheres - Sílvia Teles, Marisa Gata Mansa, Astrud, Miúcha, Maria Harris etc., está num canto, sem dinheiro, sem banquinho e violão, esquecendo o passado e esquecido no presente.

Fechou a porta e, por capricho do destino, é nome do seu primeiro sucesso esse seu desligar de tudo e de todos, esse seu adeus ao passado. Chega de saudade...

P.S. - João Gilberto pleiteia na Justiça, contra a gravadora EMI, indenização de R$170 milhões por danos morais e uso indevido de direitos autorais, entre 1964 e 2014.

Curtam aí, clicando o link, João e Tom. Chega de saudade.

https://youtu.be/xZvAgusfuls

Deuses sem limites, bocas sem cérebro e o som dos "trumpetes"


Faetonte, filho de Hélio, o deus Sol, vai um dia até ele para pedir ajuda. Os amiguinhos haviam posto em dúvida sua origem divina e ele pede ao pai alguma coisa que lhe permita demonstrá-la claramente à patota dos incrédulos.

O deus promete atendê-lo e o faz em nome de Estige, a ninfa-rio que simboliza os juramentos solenes dos deuses do Olimpo, o que torna a palavra dada irrevogável.

Mas só após a promessa feita é que o jovem lhe pede para guiar, por um dia, a carruagem com que Hélio faz seu astro percorrer a abóbada celeste. O pai suplica, inutilmente, que desista da ideia, mas acaba cedendo. Também inutilmente, recomenda prudência na condução de poderosos cavalos.

Faetonte está decidido a mostrar a sua habilidade às irmãs (as Helíades) e também, à Clímene, a mãe, que o encoraja. Lançando-se no céu, logo perde o controle dos animais que as suas próprias irmãs haviam domado. Em sua maluca trajetória, a carruagem primeiro voa muito alto, depois desce e se aproxima demais da Terra. A vegetação se incendeia, os rios secam, até que Zeus põe fim ao desastre, atingindo Faetonte com um raio. O rei dos deuses só intervém porque Hélio, o pai, não soube ser severo, impor limites, dobrando-se ante a arrogância do filho.

Seria interessante que o capitão-presidente se mirasse no exemplo e se poupasse do erro da falta de rigor do Deus Hélio e desse um basta à arrogância dos seus três Faetonte, impondo a eles limites, antes que incendeiem o seu governo e sequem os rios de esperança de um país que precisa e torce pelos seus acertos.

ATO II

Ou capitão-presidente foi mau aluno em Agulhas Negras ou também não passou pela Escola Superior de Guerra. Infelizes as suas colocações nas entrevistas dadas em Washington. Falta que queira construir um muro entre Brasil e Venezuela, tamanha a ênfase que deu ao "wall of Trump", na fronteira com o México. Mas o esbarrão maior ficou por conta da infeliz afirmação de que "a maioria dos imigrantes não têm boa intenção".

Talvez ache que brasileiros honestos são os que ficam aqui. E, com certeza, ignora que, tanto a nossa terra quanto a do seu amigo lá do Norte, só alcançaram desenvolvimento econômico graças à força de trabalho das colônias de imigrantes - realce para a dos italianos, em maior número em ambos os países.

Importante que alguém lembre a ele que os Bolzonaro (com "z", na sua forma original), seus ancestrais, são da região do Vêneto e que há, hoje, parentes dele em Rovigo, Anguillara e San Martino di Venezze. Generalizar a má índole dos que vêm de fora é olhar-se no espelho e cuspir em si próprio. Nativo puro nessa terra brasilis, tirando os índios, outro não há.

ATO III

O bate-bola dos "Trumps": relações comerciais
em primeiro plano
(Imagem Rede Globo)
O Pacto Donald foi firmado. Os militares de lá só vão usar a base espacial de Alcântara, no Maranhão, se o Congresso estadunidense, majoritariamente democrata, aprovar os termos do acordo. Mas será injusto dizer que não há esforço do presidente em tentar consolidar, a curto prazo, uma aliança de livre comércio com os Estados Unidos.

Óbvio que não se pode esperar resultado imediato das tratativas, até porque há óbices por conta das barreiras burocráticas, tarifárias e não tarifárias vigentes, culminando com as sobretaxas a produtos brasileiros - lutar pelo seu fim é uma das metas do presidente. Resta saber se haverá, por parte de Trump, a flexibilização da polêmica "America First", a plataforma de política externa da Casa Branca. Esperar e ver.

P.S. - Recebo mensagem: pedido de impeachment de Gilmar Mendes tem 150 páginas. Só dele? E os outros? E os outros de outros tribunais? E aquela regra que condena juiz corrupto à aposentadoria compulsória com vencimento integral? Se fosse só Gilmar o problema...

18 de mar. de 2019

Davi prende o rabo e Dodge vira Fordinho 29



Segunda-feira 18, São Paulo. Embora tenha dito que não criaria obstáculos para impedir a CPI do Lava Toga, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, perguntado, na FIESP, sobre o que fará com o novo requerimento a ser protocolado nesta terça, disse: "O nosso país precisa de estabilidade. As instituições têm de funcionar e o Brasil não pode, nesse momento delicado de sua história, ter clima de conflito entre as instituições. Uma guerra institucional não vai fazer bem ao Brasil, neste momento".

Davi fazendo média. É alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal, que apuram irregularidades na campanha dele, em 2014. As ações tramitam de forma conjunta e estão sob a relatoria da ministra Rosa Weber. Um dos casos corre em segredo de Justiça.

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Do pastor Silas Malafaia, ipsis verbis/ipsis litteris: "Eduardo Bolsonaro ajudaria muito mais o governo do pai parando de falar asneira. Poderia ter ficado de boca fechada na questão dos imigrantes ilegais brasileiros. Não conhece a realidade da questão. A maioria, quase que absoluta, vai para trabalhar".
E arrematou: "Não tenho vergonha dos brasileiros ilegais que estão em diversas nações poderosas. Pelo contrário, são trabalhadores que foram tentar a vida, fugindo do desemprego".
Pelo andar da carruagem, as alas bolsonaristas estão em conflito. Evangélicos, militares e olavetes trocam petardos entre si. Batem do pescoço para cima.

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Depois da canetada que exonerou 21 mil comissionados e extinguiu os cargos que ocupavam, o presidente Bolsonaro fez publicar no Diário Oficial desta segunda, 18, decreto estabelecendo que, a partir de agora, só quem é ficha limpa poderá ser nomeado para cargos comissionados. A medida também torna inelegíveis servidores enquadrados na mesma lei. Resumindo: detonou a farra de cargos do PT e avisou que só limpo joga no time.

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Também nesta segunda, 18, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o Diretor Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, estiveram tentando negociar, nos Estados Unidos, o acesso aos dados do Facebook e Whatsapp, sem a necessidade de um pedido judicial. Não creio que consigam. O sigilo faz parte da confiança entre os usuários e as duas ferramentas. Ambos (e também o pessoal do CNJ) deveriam ler melhor a Constituição. Ela prevê a inviolabilidade de correspondência e isso se aplica às parafernálias da modernidade. Assim, os meios eletrônicos, realizados em redes sociais e e-mails, têm sigilo amparado pela Lei Maior. Aqui e lá, onde o rigor é total.

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De Dodge a Fordinho 29. É farpa à Procuradora Geral da República, depois de sua queda de braços com a força-tarefa da Lava Jato. Pensando em ser reconduzida ao cargo, Raquel Dodge caiu em desgraça junto aos colegas de instituição e sabe que, dificilmente, obterá os votos necessários para compor a lista tríplice a ser enviada ao presidente Bolsonaro. Os rumores lá na PGR sinalizam que ela alimenta a esperança de ser indicada pelo presidente, à revelia da lista. A eleição será daqui a seis meses.

P. S. - A Associação Juízes para a Democracia expediu nota em defesa do STF e repudiando os ataques ocorridos neste domingo, 17, contra a instância maior do Poder Judiciário, em Brasília. Dezenas de faixas foram colocadas, em protesto contra aquela instituição. A mais violenta delas: "STF, puteiro do PT".

A Casa Branca e a casa de Mãe Joana

O presidente Jair Bolsonaro falando a "formadores de opinião", em Washington
Foto: Alan Santos (PR)


O Brasil espera e precisa que o presidente Bolsonaro acerte, devolva o país ao desenvolvimento e esperança ao nosso povo. Há um país em oração para que isso aconteça.

Mas há um conjunto de atitudes que resultam num grande ponto de interrogação. Começa pelo vazio no comando. Há muita gente, sem legitimidade, falando pelo presidente. Esta viagem aos Estados Unidos só faz aumentar a dúvida sobre quem é que de fato manda aqui.

Na chegada, o jantar na casa do embaixador brasileiro Sérgio Amaral mais pareceu bandeja de loas ao escritor Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, do que talheres de boas vindas ao nosso presidente. Presentes à farta mesa estavam formadores de opinião e ativistas da extrema direita estadunidense, capitaneados por Steve Bannon, o mago estrategista de Trump.

Pelo que lemos, vimos e ouvimos, o périplo da nossa comitiva, mais que do que estreitamento de relações, cuidará da materialização da nossa subserviência aos anfitriões. No ágape de domingo, alguns pontos foram discutidos. Um deles, a nossa relação com a China, maior importadora dos alimentos que produzimos. Trump não quer os amarelos por lá e, no jantar, o alerta foi dado: qualquer concessão aos chineses merecerá restrições de Tio Sam.

Segundo Olavo, bisando o presidente eleito, "a China pode comprar ao Brasil, mas não comprar o Brasil ". É o velho discurso do macarthismo ianque e do lacerdismo tupiniquim: nada de negócios com países comunistas. Coisa de mentalidades jurássicas. Comercialmente, a China surfa nas ondas do capitalismo. Vamos dizer não a um bom freguês, porque o Trump 1 manda e o Trump 2 obedece.

Nesta terça, 19, ambos os presidentes estarão reunidos para firmar o "Pacto Donald". Dentre os pontos principais, o uso de tecnologia americana para o lançamento de satélites, por nós e por eles, na nossa base em Alcântara. Outro, polêmico e questionável, é o da não exigência de vistos para que cidadãos estadunidenses entrem no Brasil quando quiserem, sem que tenhamos direito à reciprocidade, ou seja, não podemos entrar no país deles pela mesma norma. Ao oficializar o nihil obstat, nos fazemos (mais uma vez) quintal da Casa Branca. Pior: viramos casa de Mãe Joana. Infelizmente.

P. S. - O Brasil torce e espera que o presidente acerte, mas que também governe, decida e aja como presidente de todos os brasileiros e não só dos que nele votaram.

17 de mar. de 2019

Sábados, domingos, segundas... a esperança persiste

Domingo, pé de cachimbo. Da paz. Precisamos. O nosso mundo está tomado pelo ódio, intolerância, desamor, indiferença. Harmonia não há, nem mesmo na música nativa, outrora tão boa. A vida é bela, mas a fazemos feia. O verbo de Deus foi mudado: odiai-vos uns aos outros. É o mandamento da vez.

Ali na banca, conversávamos sobre o nosso Brasil. Queixas. Bolsonaro ainda não disse a que veio. Uma pessoa ao lado, fora da roda, invade o espaço: "Isso é conversa de esquerdista, de comunista. Essa raça tem que ser extinta".

Democracia é vez e voz para todos, mas, ao que parece, menos para os democratas que estão no poder. Óbvio que há gente boa em todos os lados - como há em todos os segmentos sociais -, daí que esta segregação em curso nos coloca num campo minado, conflitos à espera da primeira pedra.


A ampla matéria deste 17 de março, publicada pelo Estadão, é documento que justifica essa preocupação. Há um bunker reunindo exército de bolsonaristas e olavistas para promover o linchamento virtual de quem ouse discordar do que aí está. Detalhe: o primeiro nome, comandando a tropa, é o do próprio presidente.

Esse trupe me traz à memória os "camisas pretas", da Ação Integralista, de Plínio Corrêa de Oliveira, apoiadores da ditadura de Getúlio Vargas, e, mais recentemente, 1964, os brucutus do CCC - Comando de Caça aos Comunistas. Sorte dos de antanho que eles não tinham a internet.

Ódio, intolerância, racismo - essa a matéria-prima desses robôs fantasiados de humanos e que, em nome do "podemos porque mandamos", estão levando ao rompimento as relações humanas. Sejamos diferentes nas ideias, mas iguais no respeito, na urbanidade. Os de tal conduta hostil não podem falar em democracia, Pelos atos, nem sabem o que é. 

Folheando jornais e revistas, há dois outros pontos em evolução e à espera de ebulição: a ativação imediata da Operação Lava Toga e a mobilização comandada pela deputada Joice Hasselman. A líder do Governo no Congresso pede a aplicação do artigo 142, da Constituição, que trata da intervenção militar, e que ela se dê no Supremo Tribunal Federal.
Que venha a Lava Toga. Intervenção militar? Essa moça está mexendo com fogo.

A semana terminou com a carta de Lula aos lulistas: é inocente, quer julgamento justo, foram desumanos no caso dos velórios, que só está preso por conta de manobras políticas com o apoio da mídia, tendo à frente a Rede Globo. Ah, e que Bolsonaro só foi eleito porque não o deixaram ser candidato.

Outra semana começa com a surpreendente declaração do guru do capitão, Olavo de Carvalho. 
Neste sábado, nos States, ele participou de encontro promovido por Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca e da campanha de Trump. Questionado sobre como avaliaria o governo que ajudou a eleger, foi direto:

"Se tudo continuar como está, já está mal. Não precisa mudar nada para ficar mal. É só continuar assim. Mais seis meses, acabou".

Cai o pano.


P.S. - Na quinta-feira, de uma canetada só, o presidente Bolsonaro demitiu 21 mil servidores comissionados, bem como extinguiu os respectivos cargos. Haviam sido nomeados nos governos Lula/Dilma.