7 de nov. de 2026

Flávio e a derrota que não terminou

 


A entrevista de Flávio Bolsonaro à Folha de S.Paulo de hoje, dia 7, revela um político que ainda não conseguiu encerrar a eleição de 2026.

Derrotado por Lula, o senador continua questionando o resultado, embora admita não possuir provas de fraude. É uma contradição que merece reflexão.

Questionar procedimentos eleitorais é um direito, mas lançar suspeitas sem apresentar evidências é outra história. A democracia não pode ficar refém da inconformidade dos derrotados.

Outro ponto chama a atenção: Flávio permanece nos Estados Unidos e pretende exercer seu mandato parlamentar à distância. É uma escolha que exige explicações aos brasileiros que o elegeram.

O senador também afirma que Jair Bolsonaro errou ao retornar ao Brasil em 2023 e deixa claro que não pretende repetir o que considera um erro do pai.

Enquanto isso, já olha para 2030, admitindo disputar novamente a Presidência. A eleição acabou, mas a próxima campanha parece ter começado.

Há ainda uma disputa silenciosa pela liderança da direita. Flávio e Tarcísio de Freitas representam posturas diferentes diante do resultado eleitoral.

A oposição é necessária. Fiscalizar, criticar, denunciar e apresentar alternativas são funções indispensáveis ao equilíbrio democrático, mas oposição não significa alimentar permanentemente a desconfiança nas instituições.

O Brasil precisa discutir emprego, saúde, educação, segurança pública, desenvolvimento e desigualdade social. Precisa de soluções, não de uma campanha eleitoral interminável.

Flávio recebeu milhões de votos e tem legitimidade para representar seus eleitores, mas legitimidade também significa responsabilidade. O mesmo vale para Lula, que recebeu das urnas o direito de governar, não um cheque em branco.

A democracia exige vencedores humildes e derrotados responsáveis. Afinal, o Brasil não pertence a Lula, a Bolsonaro ou a qualquer partido. Pertence aos brasileiros e estes merecem mais trabalho, menos ressentimento e, sobretudo, respeito à vontade popular.


Taxem os pobres! A frase que revela o abismo social

Há atitudes que dizem mais sobre uma sociedade do que centenas de discursos políticos. Uma camiseta, por exemplo. Bastaram três palavras estampadas no peito de Constanza Peña, filha do presidente paraguaio Santiago Peña, para provocar uma tempestade de indignação: “Tax the Poor” — “Taxem os pobres”.

Pode ter sido uma brincadeira. Uma ironia. Uma provocação. Não sabemos. Mas sabemos que há coisas com as quais não se brinca. A miséria é uma delas.

É muito fácil fazer humor com a pobreza quando se nasceu cercado de privilégios. Quando a mesa está sempre posta, o guarda-roupa está cheio e o futuro parece garantido. Difícil é explicar a graça da frase à mãe que precisa escolher entre comprar o remédio ou alimentar os filhos.

O mundo já cobra caro demais dos pobres. Cobra na alimentação, na moradia, no transporte, na saúde e, sobretudo, na ausência de oportunidades. Cobra até pela esperança, e, frequentemente, oferece em troca a indiferença.

Não se trata de condenar uma jovem por sua origem familiar, nem de lhe atribuir intenções que desconhecemos. Trata-se de reconhecer que palavras e símbolos têm significado, especialmente quando associados a pessoas próximas do poder.

A desigualdade não é uma abstração econômica. Tem rosto, nome, endereço e lágrimas. Está na criança que vai à escola com fome, no trabalhador que envelhece sem conseguir comprar uma casa, no idoso que divide a aposentadoria entre medicamentos e supermercado.

Eis a questão: não precisamos de mais impostos sobre a pobreza. Precisamos de mais responsabilidade diante dela.

Uma sociedade civilizada não se mede pela quantidade de milionários que produz, mas pela dignidade que assegura aos seus cidadãos mais vulneráveis.

A pobreza não é motivo de piada. É motivo de vergonha coletiva quando nos acostumamos a conviver com ela sem indignação. Talvez a frase mais apropriada para estampar uma camiseta não seja “Taxem os pobres”, mas outra, infinitamente mais humana:

“Respeitem os pobres. Eles já pagam caro demais para viver.”


O mundo precisa reaprender a ser humano

 

Há alguma coisa profundamente errada com a humanidade. Nunca tivemos tanto conhecimento, tanta tecnologia, tantos recursos para melhorar a vida. Paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil praticar o mais elementar dos sentimentos: o amor ao próximo.

O mundo evoluiu nas máquinas, mas parece ter regredido nos sentimentos. Encurtamos distâncias, mas ampliamos abismos. Aprendemos a conversar com inteligências artificiais, mas estamos desaprendendo a dialogar com os nossos semelhantes.

A corrupção desafia a ética, a mentira disputa espaço com a verdade e a intolerância transforma diferenças em inimigos. O preconceito, a xenofobia, o racismo e a discriminação encontram terreno fértil numa sociedade que parece ter perdido a capacidade de respeitar.

E há algo ainda mais assustador: a banalização da crueldade. Pessoas comemoram tragédias, justificam guerras, aplaudem perseguições e desejam o sofrimento de quem pensa diferente, como se a divergência política, religiosa ou ideológica fosse motivo suficiente para negar ao outro a condição de ser humano.

Estamos formando gerações extraordinariamente preparadas para dominar tecnologias, mas nem sempre educadas para compreender a solidariedade, a compaixão e a fraternidade.

Precisamos resgatar valores que não deveriam envelhecer: honestidade, respeito, responsabilidade, justiça, tolerância e dignidade. Valores que começam no berço, amadurecem na escola e precisam ser cultivados diariamente na convivência social.

Não basta exigir ética dos governantes enquanto toleramos pequenas desonestidades no cotidiano. Não adianta condenar a violência das guerras, enquanto cultivamos guerras particulares nas famílias, nas ruas e nas redes sociais.

Precisamos de menos arrogância e mais humildade. Menos ódio e mais compreensão. Menos indiferença e mais solidariedade. Menos preocupação em vencer discussões e mais disposição para construir a paz. Sim, porque, se continuarmos avançando em tudo, menos na capacidade de amar, poderemos conquistar outros planetas sem sequer merecer aquele em que vivemos.