16 de jul. de 2026

NARRATIVAS, FATOS E A OBRIGAÇÃO DE LEMBRAR

Ouvi atentamente a entrevista concedida por Cairo Batista ao jornalista Cláudio Lima. Como toda entrevista política, ela trouxe desabafos, acusações, interpretações e uma narrativa sobre o momento vivido pelo grupo político que governou Catalão nas últimas décadas.

Cairo sustenta que existe um movimento para enfraquecer e até "sepultar politicamente" o ex-prefeito Adib Elias. É uma versão dos acontecimentos e, como tal, merece ser registrada.

Mas o jornalismo tem uma obrigação diferente da política. A política vive de narrativas. O jornalismo vive da cronologia dos fatos.

Por isso, antes de aceitar qualquer interpretação, é preciso lembrar como essa história começou.

Até meados do ano passado, Adib Elias defendia publicamente a reeleição do deputado estadual Jamil Calife. Gravou vídeos, participou de eventos e manifestou apoio ao parlamentar, eleito pelo grupo político que ele próprio liderava.

Naturalmente, prefeitos, vereadores e lideranças assumiram esse compromisso. O prefeito Velomar Rios, assim como a maioria da base na Câmara Municipal, caminhava nessa direção.

Posteriormente, Adib decidiu disputar exatamente essa vaga. Não discuto o direito de ser candidato. Esse direito é legítimo e pertence a qualquer cidadão. A questão política é outra: a mudança de estratégia ocorreu sem que o grupo fosse previamente reunido para rediscutir o projeto construído até então.

Parte das lideranças manteve o compromisso anteriormente assumido com Jamil Calife. A partir daí surgiu o conflito que hoje produz versões tão diferentes sobre os mesmos fatos. Depois vieram as exonerações, as declarações públicas, as acusações de perseguição política e os desabafos que todos acompanhamos.

Cada lado tem sua leitura. É natural que tenha. O que não pode acontecer é permitir que a narrativa apague a sequência dos acontecimentos.

Não escrevo estas linhas para defender este ou aquele. Tenho amizade e respeito por muitas das pessoas envolvidas nessa história, inclusive por Adib Elias, com quem trabalhei durante anos e a quem sempre disse, pessoalmente, aquilo que pensava, concordando ou discordando.

Continuarei fazendo exatamente isso. O papel do jornalista não é fabricar heróis nem escolher culpados. É organizar os fatos para que o leitor forme seu próprio julgamento.

Na política, as narrativas procuram definir onde a história começa. No jornalismo, a história começa onde os fatos começaram. E fatos, felizmente, têm memória.


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