30 de mar. de 2019

Que Bolshalom também seja Bolsalam


Bolsonaro viaja para Israel
O presidente Jair Bolsonaro, quando embarcava,
neste sábado, para Israel (Foto: Alan Santos/PR)
O presidente Bolsonaro tem o Brasil para "consertar". Deveria começar a fazê-lo, ao invés de bater asas e pousar em apoios indevidos a interesses alienígenas. Tivesse aprofundado o seu conhecimento histórico, não seguiria a imposição de vontades do seu ídolo Trump e jamais apoiaria a estúpida intenção de se fazer de Jerusalém a capital de Israel. Berço de três religiões - judaísmo, cristianismo e islamismo -,  a velha cidade é patrimônio do mundo - é uma cidade de todos. Que a capital israelense continue sendo Tel-Aviv.

É preciso que tenhamos uma política internacional pautada na legislação e acordos vigentes, com submissão às resoluções da Organização das Nações Unidas. O presidente, ao seguir Trump neste apoio, apenas reforça o matiz servil a ele imputado, em sua primeira estada na Casa Branca. 

É preciso colocar os interesses do Brasil acima de tudo - aliás, este é o lema dele, na campanha e, agora, no governo. Que cumpra, pois, o slogan e pondere o que é bom para o seu país, para o seu povo. Passar caol no menorá judeu pode nos custar a perda de bilhões de dólares árabes. O Oriente Médio é um dos maiores importadores de produtos brasileiros. 

Os números, em 10 de fevereiro deste 2019, atestam isso. Exportamos para eles produtos vários, num total de US$ 1 bilhão 749 milhões, e importamos US$ 811 milhões, com um saldo positivo de US$ 938 milhões na nossa balança comercial. Com Israel é o contrário: exportamos US$ 57 milhões e importamos três vezes mais: US$ 184 milhões - um déficit de US$ 127 milhões. Perder o mercado árabe será construir o nosso próprio muro de lamentações. 

O Sr. Bolsonaro precisa deixar de ouvir o seu (a)trapalhão ministro de Relações Exteriores. Inábil, politicamente, e, ababelado, revelando-se ignoto em política econômica internacional, o Sr. Ernesto Araújo já causou apreensão por seu discurso contra a China, apregoando que ela pode comprar, sim, os nossos produtos, mas não a nossa alma.

Alma eles não a querem, todos sabemos - mas Araújo não titubeia, quando prega que devemos dá-la de presente a Trump. A verdade é que, paralelamente à sua cultura xenófoba, há uma ruidosa sinofobia instalada no nosso chanceler. Rejeita a China por ser ela um Estado comunista.

Curiosamente, cabe, como lição ao nosso chefe do Itamaraty, o brocardo de um velho chinês, Deng Xiaoping, quando em defesa da abertura dos negócios do seu país para o capitalismo: "Não interessa se o gato é branco ou preto. O que importa é que ele mate o rato". 

Dinheiro não tem ideologia. Sejam dólares, rublos, ienes, remimbis, o importante é que comprem do Brasil. Podemos ser, de fato, o celeiro do mundo. Basta que tenhamos política econômica interna forte, com apoio ao setor produtivo, a desoneração dos custos etc., para que, com preços competitivos, conquistemos o mundo. 

Que o presidente Bolsonaro não judaíze as suas ações, ainda que seja seu desejo pessoal. O Brasil está acima das suas vontades. Em Jerusalém, vá sozinho ao Muro das Lamentações. Esqueça o Araújo e deixe Benjamim Netanyahu em casa. Ir com ele é, praticamente, romper com os árabes, o que vai ser bom para Israel, mas muito, muito mesmo, ruim para nós. O que queremos são bons negócios e muita paz (shalom) com os israelitas e muita paz (salam) com os ismaelitas. Isso é o que importa e que assim seja.
      
P.S. - Araújo, ao afirmar ser o nazismo de esquerda, expõe o seu despreparo para comandar o Itamaraty. O nacional-socialismo (nazismo) sempre foi um movimento de extrema direita. Rejeita a democracia, a igualdade das pessoas e, totalitário, promove a segregação racial e étnica etc. Na verdade, regimes totalitários são cânceres, sejam de direita ou esquerda. É preferível a democracia, ainda que com imperfeições. Nela, o povo tira quando quer, muda quando cansa. 

29 de mar. de 2019

A balada dos revoltosos e o telefone indiscreto


Goiânia, dias primeiros de março, 1986. Eu trabalhava na Rádio Jornal de Goiás, último andar do edifício do Cine Capri. Apresentava a manhã política, a competentíssima jornalista Deja Moura, da TV Goyá, era a minha repórter. Um telefone, uma agenda telefônica e estamos no ar. 

Antenados, acompanhando o programa, os políticos sabiam que o telefone chamando, entre 7 e 8 horas, só poderia ser o Bordoni querendo saber alguma coisa. A pauta consistia em informações levantadas por mim, repercussão de destaques nos jornais do dia e, também, entrevistas agendadas previamente.

Certa tarde, na Assembleia Legislativa, a bancada do PMDB estava descontente com Iris Rezende, que havia deixado o governo para ser ministro de Sarney. Senti que a ruptura era iminente. Acusavam Íris de se achar dono do partido. A nau dos insatisfeitos era capitaneada pelo senador Mauro Borges, marginalizado pela ala irista, detentora do controle da legenda.  

Ninguém dos "revoltosos" queria falar. Bagres ensaboados. Única exceção era o deputado Maranhão Japiassu, da ala conjurada e que acabara de chegar de Brasília, onde estivera com Mauro, no Senado, para tratar de projeto de construção de ponte sobre o Rio Tocantins. 

Combinei de falarmos sobre a obra, de coisas da política e que ligaria para ele na manhã seguinte, por volta de 7h20, 7h30 da manhã. E o fiz, discagem direta no ar.

- Bom dia, deputado. Bordoni falando. Tudo bem?

- Tudo bem, Bordoni. Antes da gente falar da ponte, deixa eu te contar uma coisa, mas, por favor, ninguém mais pode ficar sabendo. Vai ser uma bomba. 

Nem pude dizer que já estávamos no ar. Ele logo emendou o explosivo segredo:

- Eu, o Moisés Abraão, o Mauro Borges, o Aparecido de Paula, o Tarzan de Castro e o Manoel Motta vamos cair fora do PMDB. Vamos todos para o PDC e lançar o Mauro Borges candidato a governador.

O segredo da conjuração deixava de existir. Foi, realmente, uma bomba. O palácio tremeu. Os alicerces do partido foram sacudidos. Os revoltosos estavam preparando um anúncio alvoroço, para solapar de vez o PMDB. 

Naquele mesmo dia, na Assembleia, durante a sessão, colegas jornalistas pegaram o telefone do balcão da imprensa e chamaram o Japiassu:

- Deputado, ligação para o senhor. É o Bordoni.

- Manda esse f... d... p... para a p... q... p...

Francisco Maranhão Japiassu, maranhense de Carolina, de saudosa memória, foi um dos bravos defensores da criação do Estado do Tocantins. Pequeno no tamanho, grande em dignidade e generosidade. Com respeito, o reverencio e à sua história.

P.S. - Os brasileiros em situação de pobreza somam 54,8 milhões. Há outros 15,3 milhões em pobreza extrema. O desemprego atinge 13,1 milhões de pessoas. A nossa economia vai mal, o dólar dispara, as reformas não acontecem, os políticos mentem e idem os juízes. Os tartufos de todos os poderes querem nos fazer de palhaços. E estão conseguindo. Faz tempo. 

28 de mar. de 2019

Os soldados mecânicos e os exércitos da intolerância


A meteorologia política prevê instabilidade, com fortes pancadas para todos os lados. Tempo nublado, céu encoberto. Nuvens negras e risco de tempestades. Ventos fortes de insensatez em todos os quadrantes. Temperatura em elevação. A mínima de hoje: deputado estadual paulista quer que universidades façam exame toxicológico em candidatos, barrando dependentes e ex-dependentes de drogas. A máxima: Ciro Gomes chama Bolsonaro de "imbecil" e "semianalfabeto".

O tempo instável preocupa, mas comecemos pela temperatura. Na mínima, o máximo é a flatulência mental do deputado, tal Gil Diniz (PSL-SP). Não sabe (ou finge que não) que dependência química é doença, mas insiste em querer barrar o ingresso de dependentes e de ex-dependentes nas universidades públicas de São Paulo. Haja parvoíce. O cidadão, vítima das drogas, está saindo do fundo do poço, quer ser alguém na vida e se vê impedido de ingressar numa faculdade, porque um tapirus terrestris (anta, no popular) quer lei para impedi-lo! Que me perdoem as antas, pela analogia.

Na máxima, Ciro Gomes, acometido por sabe-se lá o que, tamanhas e tantas as suas estultices, parte para o ataque ao presidente, trazendo o debate sobre o país e os paisanos ao rés do chão. Com a sua cultura de notas de rodapé de livros de Economia, com certeza não gostaria de que o tratassem como o Rolando Lero do Cariri. Comporta-se como o próprio.

As estupidezes não são exclusividade de ambos. As patrulhas ideológicas de esquerda e de direita nada ficam a lhes dever. Tais confrarias se servem de robôs programados, transpirando rejeição a todos os que não comungam as suas ideias, para o massacre aos antípodas. O episódio de quarta-feira, tendo a dublê de repórter e modelo, Ana Hickmann, como personagem principal, é exemplo recente dessa cultura de intolerância que prolifera Brasil afora.

Ana se viu diante de Bolsonaro. Ela e o marido. Foto no Instagram. Legenda: "Hoje eu tive a honra de conhecer o meu presidente". Sentimento de uma cidadã em um Estado democrático de direito. 

A patrulha da esquerda (a da direita não é em nada melhor) esmerou na jactância comum aos que se acham donos da verdade e acima da razão: chamaram-na, até, de "Barbie Fascista". Ao contrário deles, ela deu o troco com classe: "Eu não tenho partido, eu tenho o Brasil".

A virulência  dos extremos incendeia as guerrilhas digitais, aprofundam a intolerância e asfixiam o contraditório, por meio de linchamentos e agressões virtuais. A esquerda agride Hickmann, a direita vê em cada não bolsonarista um comunista indesejável etc.. Nem querem saber - e têm raiva de quem sabe - que a democracia é permeada pela pluralidade de ideias e pela liberdade de expressão, pensamento e crença; que é do conjunto de pensamentos diferentes que se busca alcançar a maioria em torno da construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária.

Haters (do inglês, "os que odeiam" ou "promovem o ódio"), à direita e à esquerda, são máquinas de destruição, linchadores virtuais dos que pensam e agem diferentes. Insanos. A unanimidade é utopia. E burra. Pensamento único é ditadura e o politicamente correto é coisa de anímicos, pois onde há alma, há sentimentos e eles nunca são iguais. Os que querem o respeito por seus amores aos Lulas, que também se dêem ao respeito aos que se aprazem com os Bolsonaros, com outros nomes, outros amores, outras paixões.

Querem patrulhar alguém? Simples. Olhem-se no espelho. E façam-se melhores.

P.S. - O Ibama exonerou José Olímpio Augusto Morelli, que, em 2012, multou o hoje presidente Jair Bolsonaro em 10 mil, por pescar em área protegida. Após o flagra, o então deputado infrator discursou contra a ação de Morelli e até apresentou projeto para desarmar os fiscais do órgão ambiental. A bronca mesmo não foi por conta do valor, mas da foto tirada por Morelli, prova da invasão e, depois, viralizada nas redes sociais.


Bolsonaro pescava na Estação Ecológica Tamoios, em
Angra, área onde a presença humana é proibida

27 de mar. de 2019

A rainha da Inglaterra e os homens de vida fácil


Este filme de confronto entre poderes eu o assisti em 1964. Instituições abaladas levam ao enquadramento à ordem, pela via da intervenção. Estamos caminhando sobre o fio da navalha. Acredito que só haverá saída dos quartéis se os antípodas não se assumirem adultos e dispostos ao entendimento. Há, sim, perigo de ruptura. 

O primeiro golpe "nocauteante" foi dado na noite desta terça-feira, quando, atirando no lixo o seu Regimento Interno, a Câmara dos Deputados aprovou, em apenas uma hora, em duas votações, uma emenda constitucional que tira o poder do presidente sobre o Orçamento. A tramóia legalizada engessa parcela maior do orçamento e torna obrigatório o pagamento de despesa, hoje passível de adiamento, bem como das emendas orçamentárias das bancadas estaduais. O efeito disso: o governo perde o comando sobre o orçamento e, como disse a deputada Janaína Paschoal (PSL-SP), a armação transforma o presidente em "rainha da Inglaterra".

Foi um recado dos deputados, in$ati$sfeito$ com a decisão do presidente de não negociar com os partidos. Os líderes da maioria das siglas decidiram colocar o governo contra a parede. Feitiço contra o feiticeiro. Em 2015, o então deputado Jair Bolsonaro e o seu filho e também deputado federal, Eduardo Bolsonaro, subscreveram esta mesma PEC, com o objetivo de emparedar Dilma.

Em síntese, com a emenda aprovada (o Senado ainda vai votá-la, mas apoia a coisa), a maquininha de remarcação de preços passaria a ser abolida, pois a venda de votos pró-governo, em troca de emendas liberadas, dispensaria o balcão, deixando o Executivo sem moeda para negociar - moeda criada na dinastia de FHC, que a usou para comprar, em vergonhoso escândalo, a aprovação da PEC da reeleição. 

Ao constitucionalizar a obrigatoriedade de resgatar as emendas parlamentares ao orçamento, a Câmara, simplesmente, fará do presidente candidato ao impedimento, em caso de não cumprimento do dispositivo. Será crime de responsabilidade, passível de cassação. Parece que, depois da chamada redemocratização, a simpatia da República pelos vices está virando amor.

P.S. - Apresentar proposta de CPI da Lava Toga ferindo, sabidamente, o Regimento Interno do Senado e a própria Constituição Federal, é, demagogicamente, jogar para a torcida. O autor fica bem com a galera e o presidente da Casa, cumprindo o ordenamento legal, é quem ganha a fama de bandido. Amigos, já disse conhecido deputado mineiro, ali no Congresso há de tudo: honestos, bandidos, ladrões, probos, decentes, indecentes. Só não há bobos. Os bobos somos nós.

26 de mar. de 2019

O filme de Bolsonaro e a ópera tragicômica de Lula


O presidente Bolsonaro e Michelle foram
assistir ao filme "Superação, o milagre da fé".
O sol nasce e as mãos e bocas que trafegam em quatro ou duas rodas atiram raios raivosos com pitadas fortes de intolerância. Parece que todos acordaram com hálitos de ódio. Precisam aprender a cuidar da assepsia oral, pois as mães alheias não merecem os títulos nada nobres anunciados por canejos ambulantes.

Na vinda para o trabalho, assustadores os olhares fulminantes e ensurdecedoras as buzinas dos que querem ser donos das ruas, como se o da frente fosse o culpado pelo rotineiro stop and go em que se transformou o trânsito maluco desta - infelizmente - cidade grande. Aqui nesta Goiânia, há mais carros do que gente e eles são mais educados do que os seus condutores.

Mudando o dial, acesso as minhas fontes em Brasília. Há fartura de crises de todos os tamanhos, produtos da megalomania extremada do clã do presidente. Arrumar confusão é com eles mesmos, uma espécie de quarteto fantástico às avessas. Passaram a tarde distribuindo bordoadas verbais.

Mais calmo estava o patriarca, depois que, de mãos dadas com a sua Michelle, foi ao cinema, pela manhã. Deveria fazê-lo diariamente, melhor do que ir aos tuítes confundir espinafre de caçarolinha com espingarda de caçar rolinha. Seria de bom alvitre se pudesse arrumar um tempinho para governar o Brasil.

O Centrão já avisa que a reforma, nos termos insistidos, não passa. E vai além: a PEC da Previdência, lavrada pelo governo Temer, será devolvida à ópera. Entendem os centristas que ela é mais palatável.

O ministro Paulo Guedes, que iria à Câmara falar com os deputados, pisou no freio e manteve-se na garagem da cautela. Ainda que se alardeie ter a PEC 67% dos deputados em apoio, o governo sabe que a sua reforma não passa sem que o presidente (ou preposto) compareça ao balcão de negócios. Óbvio ululante. Sendo mais da metade da Casa pró-pacote, por que então não o aprovam?

Ad conclusam, tragicômica a desastrada a chicana dos advogados lulistas, ao pleitearem, junto ao STJ, que os processos de corrupção e lavagem de dinheiro, que levaram o ex-presidente ao xadrez, sejam, de pronto, revertidos e julgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, foro para tais crimes, segundo entendimento do STF, semana passada.

Ao concordar com o expediente proposto pelos seus gladiadores jurídicos, Lula, que até então se dizia preso político e perseguido pela partidarização do Judiciário, simplesmente assina a confissão de delitos até então negados.

P.S. - Até o momento em que escrevia essas mal-traçadas linhas, nada de CPI da Lava Toga ter sinal verde no Senado. Mais fácil a red light. Por dois motivos: fere o Regimento Interno das Casa (art. 146: "Não se admite CPI sobre matérias pertinentes às atribuições do Poder Judiciário) e, também, a Constituição Federal (art. 71: o Senado só tem poderes para auditar aspectos administrativos do Judiciário, não podendo, jamais, questionar o que ele julga).

25 de mar. de 2019

Sapos, piratas, moleques...

A semana começa com ares de liberdade para Lula, ainda que boa parte do povo Brasil queira ver o ex-sapo barbudo tomando café de canequinha por um bom tempo. Não se trata de mérito da turminha do Lula Livre, mas de filigrana jurídica que permeia as nossas duas maiores Cortes de justiça. 

Pelo balançar das redes sociais, o bloco dos capas pretas que se cuidem no decisum. O STF, antevejo, deve derrubar a sua própria jurisprudência e coibir o início de cumprimento de pena após a segunda instância. De sua vez, o STJ, atendendo à moção da defesa, pode aprovar a redução de pena do ex-presidente. Aí, ao invés da cobra, o sapo vai fumar.


Bolsomaia: o Brasil não pode ficar à mercê de arroubos
e vaidades pueris
Ainda no balançar das redes, os presidentes Jair Bolsonaro, da República, e Rodrigo Maia, da Câmara dos Deputados, voltam aos tempos de adolescência e, tal qual pentelhos incorrigíveis, protagonizam ridículo bate-barba, mostrando aos brasileiros e ao mundo que continuamos minúsculos, em matéria de prática política e, principalmente, de urbanidade. O Brasil merece respeito de suas autoridades e essa molecagem explícita aprofunda ainda mais a nossa decepção e a nossa desconfiança em relação aos que se revelam pseudolíderes.

Na esteira da semana, a boa notícia é a de que a reforma previdenciária começa a ser apreciada pela Comissão de Constituição e Justiça. A realidade nos mostra que o governo está a reboque dessa sua única proposta - e aí reside o erro do presidente, pois a vida do país carece, imediatamente, de outras ações. A economia está parada, os investimentos externos foram reduzidos, o dólar dispara (está a R$4,00) e o desemprego ultrapassa os 13 milhões de brasileiros.

A reforma da Previdência é necessária? É. Mas há pontos importantes a serem corrigidos, a começar pela idade mínima para se aposentar. Querer comparar a nossa expectativa de vida com a de países da Europa, que também fizeram tal reforma, é cálculo sem base. Aqui, a nossa média é 76 anos. Na Itália, por exemplo, 10 anos a mais.

Mas, o ponto mais importante da reforma: antes de ser promulgada, que a emenda seja submetida a um referendo. A mudança de regras mexe diretamente na vida dos cidadãos e eles devem ser ouvidos. Isso é democracia - na mais completa tradução do termo: governo em que o povo exerce a soberania.

Mobilização popular se faz necessária. Os nossos deputados e senadores, onde a maioria troca voto por benesses do governo, não têm legitimidade para decidir o que é do interesse de todos os brasileiros. O futuro de quem ralou na vida não pode ser mercadoria em balcão de negócios.

P.S. - A Rússia despejou soldados e armamentos em Caracas. Ação preventiva, depois das conversações de Trump com Bolsonaro, sobre possibilidade de intervenção no país vizinho. Há um barril de pólvora na nossa vizinhança.    

23 de mar. de 2019

Embalos de sábado à noite

Os poderes em baixa. Vídeo mostra o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, citado em "molha bolso" com a OAS.


Em Porto Alegre, em praça pública, espetacular queima de bonecos representando os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal.

Avisem ao Maia que o trabalho dignifica o homem

Moro e o Brasil têm pressa. Maia, não. Nenhuma
Ficamos todos atentos apenas aos erros da Corte (quem manda serem gritantes!), que não estamos nos atendo ao que está orbitando em torno do Brasil com urgência - e aqui cabe a atenção devida ao pacote anticrime do ministro Sérgio Moro. Uma ação prioritária para quem governa e deve respostas aos cidadãos não pode ficar ao sabor das dileções de presidente de Câmara de Deputados ou de quem quer que seja. Não porque seja lema do instalado, mas o Brasil está acima de tudo.

A violência campeia, a bandidagem migra país afora, molecotes vítimas das escolas virtuais de violência cometem barbáries contra próprios amigos de colégio, bandidos assaltam, matam, a droga impera e nós estamos presos em casa, pois o Estado tem se mostrado impotente perante o crime. Vivemos na pátria do medo.

Moro açoda Maia, porque este também é servidor público e este, ao se sentar sobre o que é de urgência, negligencia e mantém sob risco a incolumidade de quem tem o dever de bem representar. Demora injustificável. Havendo qualquer discrepância no pacote do ministro, que o Parlamento a corrija. Se a lei não é boa, que a melhorem. Estão lá para isso. O que não se aceita é crivo pessoal sobre o que pode ou deve ou não ter caráter de urgência.

É preciso sacudir o Parlamento. O país não pode ficar a reboque de vaidades, veleidades e de apegos ao poder. É obrigação do legislador prover o Estado de dispositivos que lhe permitam cuidar dos interesses dos seus cidadãos. 

Maia deveria ler sobre os maias e aprender que não se pode ter tudo sob controle, pois o mundo não depende só dele. Ah, e que nada é pessoal e que todos devemos fazer o máximo esforço, lutar até à exaustão, pois a causa é de todos. E que devemos ser impecáveis com as nossas próprias palavras, para haver coerência entre o que pensamos e o que dizemos.

Fica a lição. De graça.

P.S. - "A arrogância vem antes da queda". (provérbio alemão) 

A vaquinha eletrônica e o menino travesso



Um internauta muito espirituoso decidiu criar uma "vaquinha" virtual a fim de arrecadar dinheiro para a compra de um videogame para o filho do presidente Jair Bolsonaro e vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (PSC). Iniciada nessa sexta-feira (22/3), a campanha já havia arrecadado, até a última atualização, às 16h, R$ 375. A meta é R$ 1 mil.

"Ajudem a reunirmos recursos para comprarmos um Playstation para o Carlos Bolsonaro. Assim, ele ocupa o tempo brincando e para de ficar postando coisas impertinentes nas redes sociais", diz o texto da campanha.

De acordo com o "cowboy", caso a meta seja atingida e Carlos não aceite o "presente", o valor arrecadado será doado à Santa Casa de Misericórdia do Rio. 

A "vaquinha" surge um dia depois de Carlos, que tem 36 anos, causar um novo mal-estar entre o governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, e aliados. Na quinta-feira passada, o vereador publicou resposta do ministro Sérgio Moro à decisão do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de deixar a apreciação do pacote anticrime em segundo plano. 

P.S. - Ruim por ser do clã Bolsonaro, mas que Rodrigo Maia merece críticas, não há dúvida. O Brasil precisa da medida, corrigida, melhorada, sei lá, mas precisa. 

O perigo de repetir o passado

Batalha na Guerra do Paraguai: matança encomendada
O capitão precisa tomar cuidado com a mendacidade. Não cai bem, a quem se anunciou espetáculo de grandeza, se revelar, abertas as cortinas da realidade, ópera bufa. Do último domingo a hoje, em meio a alguns importantes acertos - vide o ajuste do Brasil nos mares da OCDE, a sua inclusão na OTAN (Organização do tratado do Atlântico Norte) -, o nosso presidente tem surfado em pantomimas, estultices e ejaculação de lorotas.

A porta aberta aos estadunidenses, ainda que sem reciprocidade, atrai o turismo, mas não só de lá. Canadá, Japão e Austrália também gozarão do "mi casa, su casa", como diriam os irmãos mexicanos, tão duramente maltratados por El Capitán, em sua defesa do muro da vergonha.

Não se tem, ainda, a completa tradução do real conteúdo do "Pacto Donald" firmado com o nosso "presidente de honra" made in USA. O "imbróglio Venezuela", por tática de ambos os estrategos, está sendo tratado como segredo de Estado. Maduro está podre, mas querem derrubá-lo já. Seremos cabo de chicote, pelo que se depreende do servilismo em elevado grau, explícito e constrangedor.

A primeira vez que nos prestamos a tal calhordice se deu quando a Inglaterra financiou a Tríplice Aliança - Brasil, Argentina e Uruguai -, para destruir o Paraguai. Os britânicos, com a sua revolução industrial, abasteciam o ocidente, menos o sul da América, onde o Paraguai, governado por Solano López, era a grande potência econômica.

Como os nossos livros de história são omissos em grande parte dos fatos, contemos que os paraguaios tinham siderurgia, fundições, estaleiros, forte indústria têxtil, ferrovias etc. Abasteciam o Cone Sul. Financiados pelos ingleses, conluiados com argentinos e uruguaios, nós os destruímos. Esse Paraguai que aí está é culpa nossa.

Pauta Venezuela. Será que vamos nos prestar novamente ao papel de instrumento em prol de interesses de terceiros? 


Presidente, resolvamos, primeiro, os nossos problemas, que são muitos. Acelere. O Brasil precisa que o senhor acerte. e tem pressa.

P.S. - O nosso capitão precisa domar os seus pitbulls. O Brasil não é o quintal de condomínio e muito menos game para filhinhos mal educados, que se acham acima de tudo e de todos, só porque papai é presidente. Dê um açaimo a cada.

22 de mar. de 2019

Os filhos do egoísmo e o homem de Neandertal


Difícil o viver hodierno. Ou seria "ódierno"? Já não somos, estamos humanos, numa transição do racional para o irracional. Involução da espécie, darwinismo ao avesso. Os olhos despejam olhares de insatisfação, de impaciência, de repúdio, de intolerância. E as palavras são isso, explicitamente.

Amor ao próximo só quando nos olhamos no espelho. Mãos estendidas para receber,  nunca para dar. Pela escala de valores, primeiro, o celular; depois, o resto. Vivemos a era do culto ao ego. Myself. Selfies.

Vida privada passa a ser pública. A face que antes guardava os nossos segredos e vontades, hoje é janela escancarada. É face...book. Vidas expostas. Corpos e almas desnudas.

Os nossos valores são medidos pelos tamanhos de bundas, peitos e pênis. Banalização do sexo, vulgarização de atributos. Os segredos por trás dos decotes e das saias viraram domínios públicos. Os valores morais, a ética e os bons costumes foram remetidos ao período jurássico. Coisas de  demodês, neste universo anômico, onde pais e filhos apenas inspiraram o nome de velha revista.

Não, este texto não tem nada a ver com misoneísmo - rejeição ao novo. Tem a ver com saudosismo, com os tempos em que as famílias eram de verdade e não apenas verbete de dicionário. Época em que as pessoas se respeitavam e se amavam. Época em que éramos humanos, em que éramos felizes e sabíamos. 

Me perdoem se estou sendo neandertalesco, mas o mundo, antes, era bem melhor.

P.S. - Hoje, pais e filhos são estranhos sob um mesmo teto. Quase não se comunicam. Egocêntricos. Todos cultuando celulares, os deuses do seu individualismo.

19 de mar. de 2019

O pai da bossa na fossa. João penhorado. Mundo desafinado

João Gilberto e Tom Jobim: quando a bossa nova
começou
João Gilberto, baiano de Juazeiro. Sem voz. Afinado. Violão na batida que o mundo parou para ouvir. Bossa. É bossa nova. Nova música, novo Brasil. JK. É Brasil lá fora. João e Tom. Tome música. Nova Iorque, Carnegie Hall, o templo sagrado dos mais mais. Além de ambos, a primeira brasileira a ganhar o Grammy: Astrud, que virou Gilberto. The girl from Ipanema se fez mundo. Fechando o quarteto, o sax do monumental Stan Getz.

João, o Gilberto, pai da Bebel e da bossa nova, que cantou em todos os cantos do mundo, escolheu reclusão voluntária. 87 anos. Não quer ver ninguém. Passem as coisas a ele por debaixo da porta.

Hoje, 19, passaram também um papel. A 25a. Vara Cível do Rio penhorou R$79.692,00 das suas contas bancárias. Era fiador do contrato de aluguel de um imóvel no Leblon, área nobre do Rio, onde morava uma ex-namorada, inadimplente. Despejada. 

João de tantas mulheres - Sílvia Teles, Marisa Gata Mansa, Astrud, Miúcha, Maria Harris etc., está num canto, sem dinheiro, sem banquinho e violão, esquecendo o passado e esquecido no presente.

Fechou a porta e, por capricho do destino, é nome do seu primeiro sucesso esse seu desligar de tudo e de todos, esse seu adeus ao passado. Chega de saudade...

P.S. - João Gilberto pleiteia na Justiça, contra a gravadora EMI, indenização de R$170 milhões por danos morais e uso indevido de direitos autorais, entre 1964 e 2014.

Curtam aí, clicando o link, João e Tom. Chega de saudade.

https://youtu.be/xZvAgusfuls