29 de dez. de 2012

Memórias: como nasceram a Vila e o Vila Nova


Ano de 1934. A cidade em construção. O ditador regional, Pedro Ludovico Teixeira, cumpria ao pé da letra o propósito do ditador nacional, Getúlio Vargas: erguer nas terras doadas por Andrelino José de Moraes, o último prefeito da Campininha, a nova Capital do Estado e marco inicial da Marcha Para o Oeste – a primeira ação de Estado pela interiorização do desenvolvimento.

Getúlio e Pedro Ludovico, em 1940
 Nenhum tostão seria gasto não tivesse Pedro as suas rusgas com o bispo de Silvânia, respeitável liderança eclesiástica e em gozo de invejável influência política no Estado. Já estava certo de que ali seria a nova Capital goiana. Seria.

Contam que, em dezembro de 1932, portanto há 80 anos, Pedro baixara decreto constituindo uma comissão que, sob a presidência do então bispo de Goiás, Dom Emanuel Gomes de Oliveira, iria escolher o local onde seria edificada a nova cidade-sede do governo. Os trabalhos foram iniciados em 03 de janeiro de 33. Por sugestão de um de seus membros, o Coronel Antônio Pireneus de Souza, alguns técnicos foram designados para promover os levantamentos topográficos, climáticos e hidrológicos nas regiões de Bonfim, hoje Silvânia, Pires do Rio e Campinas, hoje bairro goianiense.  

Bonfim possuía os dois maiores internatos católicos, para meninos e meninas. Dom Emanuel havia transferido o seu bispado de Goiás para lá e, com a sua influência, obtivera a obra transformadora da região: a inclusão do município no traçado da Ferrovia Centro-Leste. Nova sede da diocese, centro produtor de grãos beneficiado com a ferrovia conseguida pelo religioso e principal núcleo educacional do Estado também graças à Igreja, quando soube que a comissão técnica presidida pelo bispo havia optado pela escolha de Bonfim, Pedro “empinou” o velho pangaré.

Dizem que o caudilho teria chamado os engenheiros João Argenta e Jerônimo Fleury Curado e também o médico Laudelino Gomes de Almeida, exigindo deles a aprovação da Campininha. O bispo que fosse reclamar com o Papa. Com tais pareceres, Pedro teria arranchado no Catete, na tentativa de convencer Getúlio a apoiar a escolha. De acordo com os relatórios dos técnicos, tanto em Campinas quanto em Silvânia seriam necessários gastos dispendiosos para adequar uma delas à função que lhe caberia. O ditador optou por uma solução bem mais adequada ao seu propósito: ao invés de gastar muito para preparar uma das duas cidades, melhor construir uma nova, ao lado da Campininha, não magoando ao bispo e nem ao amigo e companheiro.

Getúlio lhe teria dado os 40 mil contos de réis e Pedro, pelo Decreto nº 3.359, de 18 de maio de 1933, determinou que a região às margens do Córrego Botafogo, compreendida pelas fazendas denominadas “Criméia”, “Vaca Brava” e “Botafogo”, no então Município de Campinas, fosse escolhida para nela ser edificada a Nova Capital do Estado. Entre outras medidas, enumerava o ato que a transferência se operasse no prazo máximo de dois anos.

5 de junho de 1942, a inauguração

Os trabalhos de preparo do terreno foram iniciados em 27 de maio de 33 e, no dia 24 de outubro do mesmo ano, se deu o lançamento da pedra fundamental, onde hoje se situa o Palácio das Esmeraldas.  Pedro escolheu o 24 de outubro por ter sido nesta data, em 1930, que Getúlio consolidou o golpe que derrubou o presidente Washington Luís, sagrando-se vitoriosa a revolução. Nesta data Pedro, preso, estava sendo levado de Rio Verde para a Cidade de Goiás, quando os revoltosos dominaram as forças legalistas, colocando em liberdade todos os companheiros detidos.

Esta a razão da escolha da data para o lançamento da pedra fundamental e que, depois, se oficializou como a de fundação da cidade, que, na verdade, seria dia 5 de junho de 1942, dia do seu batismo cultural (inauguração).

A bronca do “velho”

Lavrei este enorme preâmbulo só para contar que, durante a construção da cidade, Getúlio aqui esteve para ver de perto o andamento das obras. Gostou de tudo o que viu, menos quando desceu até a região onde hoje se situa o Parque Mutirama. Bem às margens do Botafogo estavam erguidas dezenas de choças de palha, locais onde residiam os trabalhadores trazidos para a empreitada. Eram pedreiros, serventes, carpinteiros, eletricistas, encanadores etc., que ali habitavam com suas mulheres e filhos.

Ranchos de palha para os peões
 Getúlio ficou muito bravo – o próprio Pedro mo disse – exigindo que o interventor providenciasse com a máxima urgência moradias que respeitassem a dignidade de todos. Foi assim que, do outro lado do córrego, surgiu o primeiro conjunto habitacional da cidade. Aos seus moradores, quando alguém lhes perguntava onde viviam, a resposta que davam era a mesma: “Moramos na vila nova”.

Quando os operários calçaram chuteiras para as peladas futebolísticas, logo um dos adversários passou a ser o pessoal lá da vila nova. De referência a vila nova se tornou bairro da Vila Nova e o elenco de operários peladeiros resultou no Operário da Vila Nova e, em 1943, passou a ser somente Vila Nova Futebol Clube, por obra e arte do Coronel Frazão (vide militar fardado na foto histórica do time).


Da bronca de Getúlio nasceram o bairro e o time, mas ninguém faz reverência ao velho ditador, nem mesmo pela ideia de mandar fazer a cidade. Não se declamam loas a ditadores e nem se entoam hinos em louvor.

São fatos e memórias do meu arquivo implacável. 

Um comentário:

  1. Moradias que respeitassem a dignidade de todos.
    Aprendam Marconi Perillo, Iris Resende, Paulo Garcia, Alcides Rodrigues e bando de vereadores e deputados.
    Vocês não servem nem para escrever tal frase ou pronunciá-la.
    Vocês são verdadeiros traidores do povo goiano.

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