14 de jul. de 2026

A BANALIZAÇÃO DO ESCÂNDALO

Fernando Gabeira escreveu uma observação que merece reflexão. Segundo ele, o Brasil parece viver cercado de escândalos que raramente produzem as consequências políticas e institucionais que seriam esperadas em outras democracias. A cada semana surge uma nova investigação, uma nova operação policial, uma nova denúncia. O espanto dura pouco. Logo outro fato ocupa as manchetes, e o anterior desaparece sem deixar a impressão de que algo realmente mudou.

Talvez esse seja o maior risco para uma sociedade: não o escândalo em si, mas a capacidade de acostumar-se com ele. Quando a exceção vira rotina, a indignação perde força. O extraordinário passa a ser tratado como cotidiano.

O mesmo ocorre com a violência. Em muitas cidades brasileiras, comunidades inteiras convivem há anos com o domínio do tráfico ou de milícias. São territórios onde o Estado disputa espaço com organizações criminosas, e essa convivência forçada vai sendo incorporada ao dia a dia, como se fosse parte inevitável da paisagem urbana.

No futebol, costumávamos dizer que a seleção brasileira jogava com alegria, criatividade e alma. Hoje, muitos afirmam que ela perdeu essa identidade. Talvez a comparação seja apenas simbólica. Mas ela desperta uma pergunta incômoda: se até o futebol parece ter perdido parte da sua essência, não estaremos também correndo o risco de perder, como sociedade, a capacidade de distinguir o inaceitável do aceitável?

Meu saudoso avô Luigi costumava dizer, com sua ironia italiana, que "o jogo do bicho deu origem ao crime organizado". Era uma provocação. Os tempos mudaram, as organizações criminosas tornaram-se muito mais sofisticadas e o desafio do Estado é incomparavelmente maior. Mas a lembrança permanece atual porque nos leva a outra reflexão: uma democracia só se fortalece quando suas instituições conseguem impedir que o crime, em qualquer de suas formas, capture espaços de poder e influência.

O problema não é apenas haver escândalos. Democracias convivem com eles. O verdadeiro perigo começa quando deixamos de nos escandalizar.

 

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