28 de nov de 2014

O TOTEM DOS DESVALIDOS

Ainda não o lancei oficialmente, mas já está à venda, na PRIMEIRA LEITURA (Goiânia Shopping), o meu último trabalho literário, O TOTEM DOS DESVALIDOS. Espero que gostem. É a história de um jornalista premiado da TIME, que tem como pauta viver entre os moradores de rua. Experiência inspirada em matéria jornalística do amigo Guarabyra Neto, a quem ofereço essa história.

13 de nov de 2014

Marx, o profeta do impossível (ou seria o filósofo da ilusão?)

Kiessel Mordecai, o Karl Marx
Disseram a ele que era um gênio. Acreditou. Só faltou discordar das regras do jogo de bolinha de gude e passar a limpo o Antigo e o Novo Testamento. Ele também não teve nada a ver com a saída espontânea dos hebreus do Egito. A verdade é que o Sr. Karl Marx nunca facilitou a vida de seus leitores. Como todos os demais autores jacobinos, ele escreve muito para dizer pouco. Falta simplicidade e não há objetividade.

Divaga. Mas não mente. E não falseia. Teoriza o impossível. Mas não devemos culpá-lo, seria injusto, pelas alucinações exegéticas de alguns e outros mais chegados à psicografia. Há textos parecidíssimos com os de Grouxo; com os de Karl, nunca. 

Comunismo. Não se credite a Marx revoluções fracassadas na Europa de 1848. Até porque só os burgueses haviam lido o “Manifesto”. Até porque só os burgueses dispunham de certo nível de conhecimento para entender a verborragia marxiana. No mais, o “Manifesto Comunista”, exaltado por alguns como o guia das aventuras revolucionárias, nunca foi além de um sumário, paliativamente rejuvenescido por Engels, dos pontos de vista revolucionários da dupla. Algumas traduções que circulam por aí são falsas. Mexeram no conteúdo, tentaram adaptá-lo aos interesses de cada rebelião. Pirataria é crime.

A essência do marxismo pode ser identificada por palavras ditas nos idos de 1845: “Os filósofos interpretam o mundo de várias maneiras. O problema está em modificá-lo”. Para ele tudo decorria da ordem como a sociedade mundial estava organizada. Assim que os métodos de organização fossem mudados, a filosofia seria desnecessária, pois onde as coisas são iguais, os pensamentos serão iguais.

O grande mal dos materialistas é esquecer que os indivíduos têm alma, têm sentimento. Não à toa que Lênin decretou a proibição de prosas, canções e versos que despertassem libido e emoções. Na sua Rússia, ereto só o fuzil. Solidariedade e agir mecânicos. 

Como o disse Chaplin, em “Tempos Modernos” – máxima que vale tanto para o capitalista quanto para o comunista: “Não sois máquina, homem é o que sois”. O deus de Hegel era Hegel. O Deus de Marx era o homem. O alemão era protagórico, cultuador do homo mensura. Tanto quanto Ludwig Feuerbach, que escreveu “A essência do cristianismo” (1841).

O Deus que Feuerbach manteve numa formulação praticamente existencialista não era mais do que a essência do próprio homem: abstrata e falsamente coisificada, e, então, cultuada. O lado B da litania seria a substituição do amor do homem por Deus pelo amor do homem pelo homem.  Nem perceberam que, no fundo no fundo, rasamente, ambos plagiavam o Cristo: amar o próximo como a si mesmo.

Marx vira Hegel do avesso quando pontua que não é a consciência que determina a existência, e, sim, o contrário: é a existência que determina a consciência.

Ele manda para escanteio a velha frase à entrada do Oráculo de Delfos: “Conheça-te a ti mesmo”. E inverte a norma cartesiana do “penso, logo existo”. Pela interpretação marxiana, seria “existo, logo penso”. Penso o mesmo que você pensa. Penso além, e, caso você não concorde, problema seu: quem perde tempo com Hegel está proibido de visitar Freud. Nem este explica.

Na teoria marxista, antitética ao espasmo hegeliano, o indivíduo é nada ou quase nada. Ele é determinado pela sociedade.

Os valores do leal parceiro

Engels: um conselho que
serviria a Marx
 
Herr Marx teve, sim, influências de Adam Smith, mas pecam os autores que dão tons de mediocridade à participação de Engels no contexto da obra conjunta. Quando Marx coloca que o trabalho de um homem produz um valor superior às suas necessidades e que o excesso (ou mais-valia) se transforma em capital para os burgueses, proprietários da produção, tal teoria é do pai de Engels, um industrial que ensinou a ambos que o lucro precede a produção.

Marx trabalhou as suas ideias idealizando um homem, olhando-se no espelho: radicalmente materialista e não-sentimental. Esqueceu-se de que, para convencer o proletário a ser um ente desprovido de sentimento, necessário será trabalhar a anulação da fonte de suas emoções. Para quem condena a alienação do homem pelo capital, condicioná-lo à não-emoção não deixará de ser uma outra forma de alienação.

A bem da verdade, Marx foi melhor profeta que filósofo. Ele previu e acertou que haveria o mais violento quebra financeiro do século 19, e o fez antes do dia 1º de maio de 1873, quando Viena estava aberta ao mundo dos negócios: a V Exposição Universal. Uma semana depois, a Bolsa vienense desmoronou, levando à falência considerável número de sociedades anônimas. E, tal como previra, deu-se o efeito cascata, com o seu desdobramento do crash na economia dos Estados Unidos.  Foi a vez da Bolsa de Nova York, cinco meses após a desastrada “valsa vienense”. Mal foram publicados os obituários das empresas estadunidenses e eis que Berlim entra na dança. Indústria, comércio e bancos.

Admitir que um comunista houvesse previsto a quebra da voracidade capitalista seria algo impensável pelos Domini ac Dei. Assim, os historiadores fizeram prevalecer a ênfase da segunda quebra da bolsa de Nova York, em 1929, procurando apagar da memória coletiva o prognóstico marxiano de 1873. Impressionante a antevisão de Marx. E ela não se deveu ao acaso. Os registros feitos por ele em 24 de janeiro de 1873, na conclusão do posfácio da segunda edição de “O Capital”, lançada em Hamburgo, denunciam os malefícios do sistema, bem como anunciam o iminente “retorno à crise generalizada”, enfatizando aos incrédulos que tal crise, pela proporção, “fará a dialética penetrar até mesmo na cabeça dos especuladores que proliferam como cogumelos no sacro Império prussiano-germânico”.

Toda essa teoria marxista só era cabível dentro de um sistema em que o processo de produção decorresse do desenvolvimento e, especialmente, do desenvolvimento capitalista. Esse não era o caso, em 1917, da Rússia não capitalista, mas imperial e constituída de feudos rentáveis ao Estado e à Igreja. Distante da teoria marxista, tudo o que se deu naquele espoliado pedaço do Cáucaso não passou de uma terrível ficção. Só a realidade leninista, eivada de mendacidade, contém as tintas vermelhas de uma revolução para nada.

Longe de assertar aqui ser o capitalismo um modelo aceitável. Infelizmente, até agora, não apareceu nenhuma outra desgraça menos sofrível.

Tentam os reds parrots” nos convencer de que é impossível explicar como um homem se aliena a si mesmo, tal como se dá no capitalismo. No comunismo, o próprio se encarrega de promover a “brain drain”. Aqui, a mídia, ainda que controlada pela “censura econômica” ou ‘editada’ pelo departamento comercial, presta significativa contribuição aos que tateiam pelo paraíso das incertezas. Há imbecis a querer a estatização da mídia. A alienação será perpetrada pelo Estado.

Marx escreveu para estátuas. A teoria marxiana e marxista não dá a devida atenção e importância à vida interior dos indivíduos. Somente através da mútua compreensão dessas vidas interiores é que poderemos iniciar, continuar e concluir juntos a mesma caminhada. Marx não compreendia isso. E nem os arcontes blindados que usurparam alguns de seus conceitos para impor uma falsa ditadura do proletariado.


A síntese da revolução marxista



“Nenhuma formação social desaparece antes de se terem desenvolvidas todas as forças produtivas cabíveis dentro dela, e jamais aparecem novas e mais avançadas relações de produção antes que as condições materiais para a sua existência tenham amadurecido no seio da própria sociedade antiga”. 

Karl Marx.

1. Marx nunca esteve lá

Apesar da insistência dos prosélitos e suas elegias à figura picaresca que dormita à margem do Rio Moscou (e da História), é pertinente afirmar que o regime instaurado na Rússia, em 1917, nada tem a ver com qualquer palavra, pensamento, teoria ou doutrina oriunda da lavra intelectual de Karl Marx. Há quase um século, culpam-no por uma aberração, indevida e injustamente, e, o que é degradante, com a permissividade tácita dos nossos historiadores, que, engajados, ou prevaricadores, ou a serviço de interesses inconfessos, cruzaram os braços, tais como arcontes blindados a expensas de Domini ac Dei.

Nunca houve Marx e nem marxismo em Petersburgo ou Petrogrado. E nem depois, em Moscou. Sequer houve leninismo, teoria de poder haurida do primeiro ditador do império tinto. Bem, antes que os acordes dissonantes se façam ouvir, vamos aos pontos nucleares deste tema introdutório sobre o cemitério de palavras inúteis que enganaram e ainda enganam o mundo.

Primeira providência: situar o que realmente foi e é o marxismo. Foi; não é mais válido o seu pensamento pertinente a fatos de sua época, cujos conceitos eram cabíveis somente naqueles momentos já superados pelo caminhar da História.  Marx morreu e a maioria de suas ideias era de um tempo que não volta mais, embora haja recidivas em vários erros (coisas dos que querem repetir o passado para construir o futuro – usar a caravela para ir à Lua, por exemplo).

O que ainda vive no marxismo, a exemplo do texto que rasga as cortinas não tão de ferro da farsa, é o seu olhar futuro a antever o status quo vigente: o capitalismo, moldável a novas formas a cada nova crise, trabalhadores sem fronteiras e a globalização da economia. Volveremos ao tema. 

2. O que é marxismo


Marxismo é o conjunto de teoria social e doutrina política derivado da obra de Karl Marx.

Marxismo é qualquer interpretação que alguém ou algum grupo dê aos preceitos e conceitos e preconceitos elaborados pelo judeu alemão Kiessel Mordechai, conhecido no mundo do pensamento iluminado por Karl Marx.

O ilustre filósofo nunca criou movimentos ou escolas. Apenas saiu pelo mundo a interpretá-lo com as lentes de um imaginário encarregado de passar a limpo o rascunho elaborado por tal “arquiteto do Universo”. 

Os cientistas políticos, sociais, econômicos, costumam definir marxismo como corpo de teoria social e doutrina política derivado da obra de Karl Marx e de seu alter-ego, Friedrich Engels. Após a morte de Marx é que o marxismo se fez ouvir por todos os cantos, pelas caixas de ressonância instaladas por Engels, e acabou se constituindo numa espécie de visão ampliada do mundo.

Na esteira da riqueza analítica de seus estudos, não faltaram politólogos para trabalhar o pensamento científico marxista no campo político – é quando o marxismo vira doutrina progressista e correia de transmissão especificamente moldada para os chamados partidos de esquerda.

Marx não teria sobrevivido e nem teríamos notado a sua passagem pelo mundo não fosse tal devoção de Engels ao amigo, sumarizando a verborragia do parceiro, deveras prolixo na colocação de seus conceitos e teorizações.

A obra de Marx seria longeva, mas graças a Engels ela se fez eterna. Foi Engels quem expôs a visão marxista do mundo e, dentro dela, as perspectivas do operariado (1888), com a cuidadosa analogia em relação à burguesia e a devida precaução para impedir ênfases exageradas que pudessem desvirtuar o caráter científico da obra – crime, aliás, imperdoavelmente perpetrado por Lênin, cabendo a Stalin a continuidade delitiva, em desonra da memória do grande pensador. De tais bolcheviques falaremos adiante.

Bis in idem. Marx só existe por causa de Engels. Até porque este tinha o que Marx nunca teve: capital no banco e no bolso. Através de seus relacionamentos, correspondências, textos que fez publicar em jornais, que Engels conseguiu criar a primeira geração de pensadores marxistas, ato germinal de uma escola que acabou consolidada. No crepúsculo do século XIX, o marxismo estava com os seus alicerces fincados ao redor das academias, principalmente das grandes, especializadas em teorias feitas sob medida para situações já existentes, ou em fórmulas milagrosas de sucessos efêmeros e de posteriores danos permanentes. O alemão as deixou upside down.

A obra de Marx foi projetada por Engels em doses regulares, quer como teoria social, como verificação econômica, e como doutrina política de grande importância, trazendo, no seu lastro, conceituações gerais e ordem filosófica.

Não há como negar que o ilustre alemão exagerou em alguns pontos em que se faz mais realista que o rei – o episódio da Comuna de Paris, por exemplo –, mas o tempo se encarregou de provar que, na grande maioria dos casos, os seus estudos estavam corretos.

3. Ditadura da obsessão


Karl Marx era um obcecado. Nasceu ávido por liberdade. Do espírito libertário, a conduta de vida é o exemplo: danem-se as regras e convenções. Sorte teve em ser amigo e parceiro de Engels, rico, que pagava as suas contas. E escrevia os seus textos.

Uma de suas manias era fixar-se em determinadas palavras de forma tão intensa e frequente que elas passaram a ser associadas à sua imagem. As mais conhecidas são: ditadura, burguesia, alienação, proletariado, capital, trabalho, mais-valia, menos-valia, igualdade, liberdade, revolução.

Como o dissemos, era obcecado por tudo o que fazia, ultrapassando os limites, inclusive. Dizia-se sob a ditadura da obsessão, mas os seus textos tinham obsessão pela ditadura. A depender dele, o mundo seria uma ditadura a ser derrubada ou instaurada, mas sempre seria uma ditadura.

Vamos à questão: quem é marxista? Marxista é todo aquele que se dá ao estudo e às aplicações das doutrinas e teorias de Marx. Assim, autores e autores divagam quando relacionam o marxismo ocidental com o fim do stalinismo e o consequente afrouxamento da repressão antimarxista, principalmente nos Estados Unidos. Nada a ver.

Pelo contrário, Marx nunca foi tão estudado nos Estados Unidos quanto no primeiro pós-guerra, quer em universidades e instituições ligadas aos setores laboral e industrial. Diferentemente, o Partido Comunista dos Estados Unidos, que ali nunca elegeu ninguém, apoia os democratas e lê mais Lênin e Stalin. De Marx, apenas o “Manifesto”, até porque os sobrinhos canhotos de Tio Sam têm mais em conta a figura de Engels, no que não deixam de ter toda razão. O lado não-utópico da obra é da lavra dele.

Jornalista, Marx era bom na elaboração de títulos, principalmente em se tratando de publicações panfletárias. O texto claro e irretocável é todo engelsiano, ao qual a muito custo cedeu e concordou com a proclamação do “Manifesto Comunista”, pois entendia ser a socialdemocracia a via revolucionária para a construção de um Estado democrático com liberdade e igualdade. Otimismo justificado pela expressiva votação dos socialdemocratas de Kautsky, em 1890, na Alemanha. (Engels, 1985, Tucker, 1978, 571)

Mas onde Engels teria errado, posto que o comunismo se fez Estado primeiro? Em verdade, ele não errou. O comunismo não se fez Estado em lugar algum. A palavra foi adaptada a interesses. Comunismo visa o bem comum, não o mal. E mais: cabível num Estado capitalista, industrializado, e a Rússia passava ao largo de tal perfil.

Houve apenas um retardamento, parece, na materialização dos prognósticos engelsianos. A revolução Marx a esperava na Alemanha. A da Rússia se deu com ele já morto. Jamais soube que todas as extravagâncias perpetradas por Lênin et alii (se é que podemos chamar genocídio de extravagância) continham uma falsa marca de fantasia: marxismo-leninismo.

4. Leninismo puro


Quando afirmamos que não houve marxismo no Outubro  Vermelho, o fazemos pela via da história dos homens que, através de seus atos, fazem a História. Houve populismo radical, leninismo populista, leninismo puro, mas não há Marx.

Ponto inicial do não-marxismo no golpe de Petrogrado: Lênin rompeu com a III Internacional Socialista e a transformou em I Internacional Comunista. 

Lênin, em 1887. Carola. Religioso. Seria burocrata de carreira, não tivesse morrido o pai. A família passou a viver dos arrendamentos e das vendas dos vastos terrenos de sua mãe latifundiária. Tudo mudou quando morreu o irmão mais velho, Alexandre Ulyanov, 21 anos, estudante de medicina na Universidade de Petersburgo. Envolvido nas atividades terroristas  do grupo Pervomartovtsi, Alexandre foi preso e enforcado. Crime: tentativa de assassinato do Czar Alexandre III, da Rússia.

A execução sumária, sem defesa, despertou em Lênin o ódio ao czarismo. Interessou-se pelas Ciências Jurídicas e foi estudá-las em Kazan. Envolveu-se com as ações da  Narodnaya Volya (Vontade do Povo). Participou de manifestações, foi preso em uma delas, por reivindicações de cunho estritamente acadêmico. Suspenso do curso, só voltou às aulas em 1890, na condição de “estudante externo”: podia apenas  prestar exames anuais, mas não frequentar a universidade. 

O ócio compulsório permitiu a Lênin maior contato com a literatura revolucionária, principalmente a narodniki. Descobriu textos do populista histórico Nikolai Gavrilovitch Tchernichevski (1828-1889) e fez dele o seu mentor.

Socialista utópico, filósofo materialista graduado pela Universidade de São Petersburgo, “Tcherni” fundou o movimento narodista, de narodniki (populismo, em russo). Marcadamente influenciado por Herzen, Belinsky e Feuerbach, foi um agitador-semeador de ações revolucionárias contra o despotismo dos czares.

Editor do jornal socialista pró-revolução Sovremennik (Contemporâneo), havia sido preso, em 1862 e confinado na  Fortaleza de São Pedro e Paulo, onde escreveu a obra da qual Lênin plagiaria o título – Que fazer? – e boa parte de seu conteúdo. Tchernichevski foi condenado à execução civil (execração pública, símile aos autos de fé da Inquisição) seguida de punição penal (1864-72). Foi deportado para Vilyuisk, na Sibéria (1872-83). Morreu aos 61 anos, em  17 de Outubro de 1889.

Quase tudo o que Lênin tem de Marx, não é de Marx, é de Feuerbach, filósofo e cientista alemão. O seu trabalho é reconhecido por sua teologia humanista e pela influência que seu pensamento exerce sobre Karl Marx. Feuerbach está latente também no pensamento leninista. Autor de várias obras importantes, fez publicar anonimamente, em 1830, um primeiro livro, “Pensamentos sobre Morte e Imortalidade”, em que refuta a ideia da imortalidade, pois “após a morte, as qualidades humanas são absorvidas pela natureza”.

É da lavra dele a lidíssima história “Abelardo e Heloísa”, escrita em 1834, mas, o seu grande trabalho foi publicado em 1839, “Sobre Filosofia e Cristianismo”, cuja primeira parte, que influencia Marx e Lênin, discute a "essência verdadeira ou antropológica da religião". Na parte final, Feuerbach analisa a religião pela sua "essência falsa ou teológica".

Nunca houve Marx na ambição leninista. Havia Lênin, que é o produto da soma de Ulyanov com Tchernichevski. E ele se fez ainda espectro mais amplo ao incorporar o espírito de Serguei Netchaiev, foice e martelo na mão.

Aos menos avisados. Netchaiev, revolucionário russo, socialista utópico, foi a academia do leninismo. Nela própria se inspirou Dostoievski, quando criou o revolucionário Piotr Vierkhovienski, personagem de seu romance “Os Demônios”.  Netchaiev já havia incorporado todos os demônios em um só – ele próprio. E Lênin o incorporou, fazendo de seu “Catecismo do Revolucionário” a “bíblia dos bolcheviques”.

“Um revolucionário é um homem antecipadamente perdido; não tem interesses particulares, negócios privados, sentimentos, ligações pessoais, bens, e nem sequer um nome. Tudo nele é absorvido por um único interesse que exclui todos os outros, por um único pensamento, por uma paixão – a revolução. No seu íntimo, não apenas por palavras, mas também por atos, rompeu todos os laços com a ordem pública, com todo o mundo civilizado, com todas as leis, conveniências, convenções sociais e regras morais do mundo em que vive. O revolucionário é um inimigo implacável desse mundo e só continuará a viver para mais seguramente o destruir”.

Palavras do especialista e ainda estão em voga. Delas fizeram uso as Brigadas Vermelhas italianas, o Setembro Negro de Arafat, e ainda o fazem o ETA basco, o IRA irlandês, os grupos extremistas árabes. Langley, of course. Lubianka, too.

Odiando tanto assim a quem pensa melhor, como pôde o líder bolchevique se pretender também intelectual e à frente de uma utópica “revolução universal”? E por que ler Marx, que repete Platão, Aristóteles, Hegel e Feuerbach ?

5. Marx dedutivo?


Lênin nunca foi marxista; esteve. Lênin sempre foi Lênin. Falou em Estado marxista, embora Marx nunca tenha desenvolvido qualquer teoria coerente da política ou do Estado. Autores há com as suas ilações, mas da pena do alemão nada saiu a tal propósito. As chamadas “concepções marxistas” de Estado – admitem os “estudiosos” do mito – “devem ser deduzidas das críticas de Marx a Hegel”, ou “da obra mais recente de Engels” (1884), ou, ainda, de “O Estado e a Revolução, de Lênin” (1917).

Assim, surpresa não nos causa quando lemos que todos os teóricos marxistas, de um ou outro modo, baseiam as suas “teorias” do Estado em alguns dos “fundamentos” de Karl Marx, e que “são esses fundamentos analíticos que constituem o núcleo o debate”. É o Estado dedutivo de Marx.

Peço escusa, não vou repeti-los. São colagens ridículas, são palavras colocadas em contextos específicos e que acabaram reunidas numa sopa de letras servida fria e sem tempero. Dedutiva é a interpretação de obra milenar cujo autor (ou autores) se desconhece – a Bíblia, por exemplo. Deduzir Marx é leviandade. Que prevaleça a teorética engelsiana de Estado, mas debater Marx pelo processo dedutivo é irresponsabilidade com a História, ainda que à mesa estejam Offe, Miliband, Draper, Hirsch, Chamberlin et alii.

Disse Marx, em sua teoria social, que não é o Estado que molda a sociedade, mas a sociedade que molda o Estado, e que a sociedade, por sua vez, se molda pelo modo dominante de produção e das relações de produção pertinentes a tal modus.

Que se saiba, não foi o que fez Lênin naquele outubro vermelho de 1917. Pelo contrário. Lênin nem estava lá, em 6 de novembro de 1917. De tal fato cuido em meu novo livro, “Lenin”.

Volvamos ainda à teoria do Estado. A tal propósito, há situações diversas em que Engels é o ventríloquo de Marx, como, por exemplo, quando dizem que o Estado surge da contradição entre o interesse de um indivíduo e o interesse geral.

Ou que todas as lutas no seio do Estado são meramente “formas ilusórias, sob as quais as lutas reais das diferentes classes se travam entre si”.

Ou, ainda, que, “através da emancipação da propriedade privada diante da comunidade, o Estado se torna uma entidade separada, ao lado e de fora da sociedade civil, mas não é nada mais do que a forma de organização que a burguesia necessariamente adota para fins internos e externos, para a garantia mútua de sua propriedade e interesses”.

São palavras de Marx? Há verbetes que o identificam pela repetição exaustiva que deles faz, mas, in casu, tecido em 1884, a grafia e conteúdo são exclusivamente de Engels. É justamente nesta época que ele desenvolve a teoria sobre a relação entre as condições materiais da sociedade, sua estrutura social e o Estado.

Assim, é Engels quem diz que o Estado tem suas origens na necessidade de controlar os conflitos sociais entre os diferentes interesses econômicos, ressaltando que tal controle é exercido pela classe social mais poderosa economicamente.

Ainda é Engels quem asserta que o Estado capitalista é uma resposta à necessidade de mediação do confronto de classes e de manutenção da ordem – uma ordem que reproduz o domínio econômico da burguesia. Vide Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, 1884.

Curiosamente, a maioria dos autores exorbita o fundamentalismo marxista na “Teoria do Estado de Marx”, e o faz usurpando conceitos emitidos por Engels em “Origem da Família...”. É Engels, e não o parceiro vitalício, o afirmador de que o Estado é o braço burguês na sociedade burguesa, ou seja: o Estado, incluído o seu sistema jurídico, é instrumento de repressão e controle a estabelecer regras de comportamento ajustadas aos valores e normas da burguesia.

É evidente – e risível a lamúria de vários autores a tal propósito – que não está muito claro na obra de Marx em que nível o Estado é agente da burguesia na sociedade capitalista.  A que leitura esses senhores se deram? George W. Bush?

O Estado é agente da burguesia no Estado capitalista quando perpetra a política do aburguesamento, processo em que setores da classe operária são incorporados à classe média (ou burguesia). Na verdade, o aburguesamento representa um conjunto de ideias de conteúdo indutivo capaz de estimular a classe operária a adotar valores da classe média. 

Basta analisarmos o como lemos-vemos os anúncios comerciais, como captamos o toque subliminar das mensagens, ou de novelas, filmes e até mesmo desenhos infantis, e aí saberemos como Estado e sociedade capitalista escolhem e dimensionam o target. Os barracos das favelas podem ser pequenos e inseguros, mas todos têm geladeira, TV, aparelho de som, DVD, e cada morador tem cabeça, tronco, membros e telefone celular. Aos miseráveis distribuem-se laqueaduras, talidomida (para os hansenianos). Aos desesperançados resta o Estado Prozac, nada prosaico e todo pragmático.

À época de Marx, dele nada é claro a tal propósito, pois que foi Engels o primeiro teorizador. Referiu-se Engels ao modo como os operários ingleses aspiravam à respeitabilidade e pensavam politicamente da mesma forma que a burguesia. Na Alemanha de Marx as coisas eram diferentes. Ao contrário do que se possa interpretar em seus textos, o capitalismo na Germânia era do domínio da aristocracia. Antes que surgisse a grande cisão, burguesia e operariado brigavam unidos contra o “Estado das nobres pessoas”.

É o momento em que surgem as ditaduras em confronto: à ditadura da burguesia deve se contrapor a ditadura do proletariado. Ao invés de se submeter ao aburguesamento, que as camadas do povo se unissem em torno de um governo que viesse da sua vontade e das suas decisões. É quando discorre sobre a Comuna de Paris. E isso está no Manifesto. E em O Capital, em que Karl Marx determinava a condição prévia básica para uma sociedade comunista: a abolição da propriedade privada.

A revolução, senhores. Enquanto o aburguesamento referia-se apenas à erosão das fronteiras entre os estratos superiores da classe operária e os elementos inferiores da classe média, a revolução preconizava “todo poder aos sovietes”, na forma mais direta de democracia, do povo pelo povo – e aí está evidenciado o discurso da escola populista de Lênin, que usou excertos marxistas como socapa para a sua particular revenge, de que falaremos ao correr do teclado.

6. O marxismo real e único


Marx tratou de economia, economia política dentro de um campo em que ele próprio denomina de teoria social. Não há marxismo pré e nem pós-Outubro Vermelho. Há um só marxismo em qualquer época, um conjunto de teorias e doutrinas elaboradas num dado momento da história. Sequer há neomarxismo – há falta de criatividade para nomear novas escolas de pensamento e que não culpem o alemão pelas coisas que dizem e escrevem tais confrarias, até porque grande parte do que escreveu foram pensadas também por Engels, filho de industrial e conhecedor das regras custo-benefício, da compra de mão-de-obra, custo original e preço final.

Em síntese, para exemplificar a sua condição antitética aos escritos de Lênin e Stalin e demais aventureiros, a doutrina marxista era fundada na economia como base para a teoria social.

A base filosófica do marxismo é o materialismo, entendido como corrente da filosofia, e o seu método básico é a lógica dialética. O materialismo filosófico distingue-se do idealismo, que constitui a base filosófica da ciência burguesa, e a lógica dialética distingue-se, nos mesmos termos, da lógica formal. Dado o domínio absoluto do idealismo e da lógica formal no contexto científico burguês, e não só nele, pois se projeta nos modos de pensar do senso comum em geral, e a inferioridade do materialismo e da representação marxista nestes meios, compreende-se não só a dificuldade de apreensão das particularidades da filosofia e do método marxistas, mas também a possibilidade da sua apreensão distorcida pela influência dominante do pensamento burguês.

Marx, ipsis verbis, in 1859: “o modo de produção da vida material determina o caráter geral dos processos sociais, políticos e espirituais da vida”.

Marx coloca este modo de produção estribado em dois fatores: as forças produtivas (leia-se a tecnologia existente) e as relações de produção – e aqui expõe, entre outros caracteres, o modo como esta produção é organizada, e, em caráter específico, a natureza dos grupos possuidores de instrumentos de produção, ou que simplesmente contribuem com sua força laboral para o processo produtivo.

Com os fatores tecnologia e método, o pensador construiu os dois primeiros fundamentos de sua teoria: a marcha temporal da história concebida como movimento progressivo a partir dos variados e evolutivos métodos de produção – da mão que cavouca ao capitalismo moderno – e a concepção do papel das classes sociais na composição e transformação das estruturas sociais.

O segundo ponto de dissecação da teoria social marxista sinaliza para o papel fundamental do avanço tecnológico em relação ao futuro do capitalismo e identifica as transformações sociais como resultantes de lutas de classe, de onde surge uma nova classe à qual se engatam as forças de produção – e isto está claro em Marx, 1847, cap. 2, seção 1, e com interconexões melhores detalhadas nos Grundrisse, p. 592 e ss.

O autor deixou claro que as mudanças são provocadas pelo progresso da tecnologia quando disse que “o moinho manual nos dá uma sociedade com senhores feudais, o moinho a vapor, uma sociedade com capitalistas industriais”.

Também foi enfático quando pontuou que o capitalismo moderno é concebido como a forma final da sociedade de classes, em que o conflito entre burguesia e proletariado se intensificará continuamente, juntamente com as contradições econômicas do capitalismo e suas crises cíclicas. Para a superação do conflito há que se depender sempre das circunstâncias históricas existentes, até que se construa a transição, em que o desenvolvimento das forças produtivas levaria ao desaparecimento das diferenças de classe, juntamente com o gradual desaparecimento do Estado.

Está clara a preocupação de Marx com a revolução em seu país, a Alemanha. Ele nunca a proclamou genérica. Isso já é coisa de pósteros. Marx sonhava com a Alemanha nos seus moldes, jamais esperaria que um país de terceira categoria pudesse perpetrar tal façanha em nome do proletariado – mas, com certeza, ficaria indignado com a farsa leninista e a nódoa que tal engodo impingiu ao marxismo, conjunto de obras e nunca corrente político-ideológica a que foi transformado por irresponsabilidade de seus infiéis tradutores.

Reafirmamos que nunca houve marxismo em lugar algum, a não ser no papel, no campo das ideias, das doutrinas, das teorias. Morus irreverente, este foi Marx.

Ele teria sido cáustico com Kautsky, quando este influenciou os alemães ao conceber o marxismo como teoria científica da evolução social – o tal darwinismo social –, cujos aspectos seriam confirmados pelo desenvolvimento do capitalismo e pelo acelerado desenvolvimento do movimento e do pensamento socialista. 

Não menos condescendente seria com o reformismo de Bernstein. Não diferente com os devaneios russófilos e lucubrações doidivanas de Plekhanov, de um lado, e Lênin, de outro, ambos falando em marxismo para usá-lo – e a acusação é ao segundo – como fator crível para perpetrar o crime lesa-pátria à custa de sangue inocente.

Assim, senhores, em benefício da História e zelando pela boa informação para a formação das gerações presente e futura, “deletem” o marxismo da Revolução Russa de 1917 et similia. A ciência agradece.

7. O pensamento engelsiano


Filósofo alemão. Filho de burguês industrial. No cotidiano das indústrias do pai, Friedrich Engels (1820-1895) conheceu, quando ainda menino, as degradantes condições de vida dos trabalhadores. Vivia com eles e entre eles. Foi ali que aprendeu o que é mais-valia e menos-valia e que o lucro está na força de trabalho contratada.  Bem antes de conhecer Marx, livre de qualquer influência, chegou a posições teóricas e políticas revolucionárias. Durante sua estada de dois anos em Manchester, Inglaterra (1845-1847), produziu sua primeira análise sobre as formas de existência e a luta social, ambas decorrentes do predomínio do capital. O Engels observador arguto e crítico – conheça-o em “A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra”. Já a partir deste trabalho inicial, o jovem autor aponta para a necessidade de uma transformação radical de modelo comunista.

Engels difere de Marx e se faz mais crível que o futuro parceiro porque descreve experiências vividas. Observa-se a atitude intelectual de Engels a partir do seu empirismo. Ele vê, experimenta, e torna a experimentar e novamente a observar. In suma, enquanto Engels se sustenta no caráter concreto dos fenômenos estudados, Marx já o faz com um alto nível de abstração. Esta característica mantém-se ao longo de toda a sua colaboração com o eterno parceiro. Um dos produtos desta harmonia e da luta política de ambos em meio às suas teoréticas da economia é o “Manifesto do Partido Comunista”, de 1848, e a constituição, dois anos mais tarde, de uma Associação Internacional de Trabalhadores.

Apaixonado pela Inglaterra (pelo vasto campo que dispõe para elaborar as suas teses), Engels instala-se em Manchester (1848), de onde começa a propagar ideias e ideais revolucionários, principalmente na Alemanha, onde têm início algumas sublevações por parte do operariado.  Ainda assim, consegue manter-se atento às variações das “marés” altas e baixas de produção de estudos e análises econômicas de Marx. Atualiza-se em relação ao pensamento contemporâneo a cada carta ou novo texto marxiano.

Esta dedicação e a sua incansável pena permitem a Engels preparar e completar a edição de boa parte de “O Capital”, de Karl Marx, além de desenvolver alguns artigos polêmicos destinados a esclarecer as fases do materialismo, dentre elas “A Revolução Científica do Senhor Dühring” (a famosa “Anti-Dühring”), além de “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” e “A Dialética da natureza” – esta publicada após a sua morte.

8. A teoria encalhada


Sincretismo de base. Assim foram difundidos os conceitos socialistas no final do século 19 e início do século 20. Marx foi um dos pensadores e não o único. Havia outras cabeças a levar cérebros a passear pela socialdemocracia. Périplos de ideias pelos nichos vários – religiosos, nacionalistas, científicos ou que se pretendiam como tal. Marx é o do grupo pretensioso.

Engels, seu parceiro, é mais arguto, investiga. É assim que auxilia Marx a compor uma teoria que procurava aproximar a palavra do gesto – a consciência revolucionária aplicada pela prática social revolucionária. É Engels quem sintetiza: encurtar a distância entre a teoria e a prática e entre dirigentes e dirigidos. Acordou Marx para a práxis.

Manifesto Comunista, arroubo teórico, foi remodelado a partir da Comuna de Paris. O Programa de Erfurt, do Partido Socialista, vendeu 120 mil exemplares, enquanto as tiragens do Manifesto Comunista não emplacaram pífias duas mil cópias. Isso em 1905, ano em que os generais russos tentam um golpe e os marujos do encouraçado Potenkim amotinam-se e dão o mote para o filme de Eisenstein. Das libélulas vermelhas, apenas Trotzki está em Petrogrado. Ele leu o MC. Só ele. E só ele leu o Livro I O Capital. Ele contou ao amigo Lênin apenas as partes principais da parte nem um pouco principal da tal ainda incompleta obra.

Marx encafifou-se com a economia política e dali não tirou seus passos. A maioria das teorias e doutrinas que levam o seu nome foi elaborada por Engels.

Falemos de “O Capital”, a cronologia da obra. O Livro I (em alemão) foi lançado em Hamburgo, em 14 de setembro de 1867. A tiragem, de mil exemplares, só se esgotou em 1871. Relançado em doze fascículos, três mil exemplares. Marx reescreveu o primeiro capítulo. Continuou ruim. Encalhe. A obra não teve recepção, só decepção.

Os “rasos” das universidades não aceitavam a “profundidade”. Pedaço de livro nunca será paradigma da economia política. Fracasso.  “Coisa da conspiração do silêncio”, acusou Marx. “E da imprensa a serviço da burguesia” – disso nem os hodiernos ousariam discordar.

Engels, usando outros nomes, tentou polemizar via jornais, queria colocar o texto em discussão. Não colou. Não decolou. Excertos do Livro I foram publicados em jornais de quase toda a Europa – Bruxelas, Genebra, Paris, Nápoles, Stuttgart, Londres, Düsseldorf. Nem assim.

Em 1872, foi lançada a edição francesa de “O Capital, Livro I”. Laveleye a triturou pelas páginas da “Revue des Deux Mondes”. Tradução malfeita, a erudição alemã de Marx e Engels não encontrava termos sinônimos no francês. Interpretaram-se significados e significantes de forma errônea. Vexame. Marx a revisou ponto a ponto.  Refez capítulos inteiros em “bom francês”. Naquela altura, o seu editor era Maurice La Châtre, o autor de “Os Crimes dos Papas” e que foi excomungado pela Igreja.

Entre os russos, o Livro I surgiu também em 1872. Editados três mil volumes, foram vendidos mil. A censura czarista liberou a obra, que, apesar do caráter socialista marcante, não podia ser qualificada como acessível a um grande público. Não sem razão. O czar atirou o exemplar dele ao lixo. Eu também.

É indigesto o texto chato de “O Capital”. As partes digeríveis são da lavra de Engels (em todas as obras). Kautsky, contemporâneo, era mais palatável, embora usando outros óculos. Suas tiragens eram até dez vezes maiores. August Bebel vendia como água, ainda que salobra. Um de seus livros, “A mulher e o socialismo”, teve cinquenta e nove edições. Livrinho chinfrim, ao gosto da plebe rude.  

Marx sempre foi chato, enjoado, pedante. Soma de hýbris com nêmesis. Burguês em linguagem burguesa ataca a burguesia. Não era e nem é fácil entendê-lo. Tanto que foram criados núcleos de estudos marxistas para traduzi-lo. Só assim as suas teorias passaram a ser mais facilmente entendidas, ma non troppo.

Tudo bem, tudo bem. Parece lobisomem, mas ele anteviu, há dois séculos, a globalização, a derrubada das fronteiras econômicas entre os países, e que os trabalhadores não pertenceriam mais a uma nação, pois as cercas também seriam derrubadas. 

“O Capital”. Entulho. Escrito em 1867, permaneceu em alemão durante muito tempo. Conta Gramsci que, em 1800, a metade dos franceses não falava o francês, e um número ainda maior nem sequer lia. Na Terra Nostra, apenas 2,5% usavam no cotidiano o italiano (a língua, toscana), e o faziam com fins práticos de propagar um idioma oficial para um país a ser unificado (1860). Os hoje boquirrotos se comunicavam tão-somente através de dialetos.

Em 42, o livro permanecia encalhado. Bolso vazio, repartia a fome coma mulher. Buscando saídas, com Engels, Marx inventou o livro interativo publicado pelo “Journal des Débats”, em que os leitores da Lutécia futricam o enredo e moldam as personagens. Venderam três mil exemplares dos chamados “Mistérios de Paris”.

Engels, durante uma semana em que se trancafiou em um hotel, reescreveu o “Manifesto Comunista”. O texto ficou mais claro, conciso. Alguém, a posteriori, violou o tecido. “Proletários”, da exaltação final, é expressão introduzida. “Operários”, diz o original.

Marx adaptou Blanqui, enunciou práxis, infraestrutura, superestrutura, alienação. É a retomada de velha discussão. Mas as coisas não andam. Nem com o dinheiro de Engels a dupla consegue editar “A ideologia alemã” (1845). Cinco anos mais tarde, os hebdomadários da Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos publicaram os seus textos – alguns transformados em livros. Em “Lutas de classes em França”, o prefácio de Engels vale a obra.

Proudhon deu o empurrão que faltava. Disse que a obra de Marx era “A Filosofia da Miséria”. O alemão retrucou na medida com “A Miséria da Filosofia”, onde desmonta o anarquismo comunista, obra que voltou ao prelo outras cinco vezes, até 1896.

“O 18 Brumário de Luís Bonaparte” também teve cinco edições europeias esgotadas (a última em 1898). A primeira foi lançada em Boston, em 1852; a segunda, em Hamburgo, em 1869 (ver relação de obras no último vagão).

Ramonet não inovou quando usou a expressão “pensamento único” no seu Le Monde Diplomatique. Nós a encontramos em cada texto marxista ou marxiano. Ou engelsiano.

Globalização. Marx sempre disse que as nações modernas eram formas provisórias de agrupamento da humanidade que, a exemplo do capitalismo, deveriam dar lugar a uma forma superior de organização. No “Manifesto” – o seu texto mais pueril, porque senil –, mais especificamente na segunda parte, ele adverte a sociedade burguesa de não ter o direito de acusar os comunistas de não terem pátria, porquanto o capitalismo, nas suas entranhas, tende a abolir as fronteiras nacionais no seio do mercado mundial.

Marx e Engels dizem mais. Através da exploração do mercado mundial, a burguesia confere um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. E ela o faz quando extingue a base nacional da indústria e, através da centralização política, centraliza a produção, concentra a propriedade e propicia a criação de mercados únicos (Manifesto, I, p. 24). In suma, a indústria sem fronteiras é base universal para o lucro universal pela via da força produtiva universal.

O exemplo inicial deste “pensamento único” nós podemos buscá-lo nas treze colônias independentes, apenas confederadas entre si, com interesses, leis, governos e tarifas alfandegárias diferentes, que se reuniram numa única nação, com um só governo, uma só lei e um só interesse de classe, por trás de um único cordão alfandegário. (idem, p.26).

Está óbvio: os Estados Unidos se fizeram pelo pensamento único. Marx não estava nem aí para o tom radical do tal “Manifesto”. O veio era a economia política e a Comuna, a atração mais importante daquele contexto teórico.

Economia política – este o leitmotiv e sobre a qual Marx escreveu por toda a sua vida. Há preciosidades. Há, também, muita tolice. Engels conseguiu editá-las em onze países diferentes até a I Grande Guerra. Conselho útil: quem ainda não leu “O Capital” (1860), poupe capital. Só o Livro III, em que Engels cuida dos temas, tem alguma coisa que se aproveite (Rosa Luxemburgo também sugere o Livro II).

Althusser decidiu estudar os devaneios do alemão e tenta ser generoso com ele. Há um complô deliberado contra Engels, pois tudo é de Marx, quando, na verdade, o inverso é que é verdadeiro. Boa parte do que pôs no papel, Karl Marx anotou nas conversas que tinha com o pai de Engels, um poderoso industrial, e com o próprio parceiro.

9. O coito interrompido


Não há definição melhor para tal livro. Mal editado, interrompido várias vezes, inconcluso. As primeiras edições de traduções de O Capital circunscreveram-se à Europa. Pelo critério geográfico, a confusa obra foi editada, entre 1872 e 1898, na Europa Ocidental – leia-se Holanda, França, Inglaterra; na Oriental – Polônia, Sérvia e Rússia; e, na América – apenas Estados Unidos e Argentina. 

Caso russo. Exageram os que ressaltam a influência da obra no animus revolucionário, pois o Livro I é incompreensível para os ignaros das estepes (o conceito é da censura czarista). O Manifesto Comunista teve tradução russa (desvirtuada da original) e várias edições até a Revolução de 6 de outubro de 1917. Lênin preferia o “Catecismo do Revolucionário”, de Netchaiev, onde o revolucionário era o homem e o adversário o bicho.

Março de 1872, dia 27. O Livro I de O Capital vertido para o russo apareceu em Petrogrado. De três mil exemplares venderam-se mil. Livro científico, ele causou revolta. Nos leitores. 

Lênin agrediu Kautsky levianamente, acusando-o de forjar escritos de Marx. Basbaque. Devidamente autorizado por Engels, detentor dos manuscritos, Karl Kautsky publicou em Stuttgart, em 1887, “As doutrinas econômicas de Karl Marx”, que nada mais eram que anotações feitas pelo próprio autor, grifando pontos de O Capital que deveriam ser massificados.  Esse pequeno livro teve, à sua época, uma circulação mais abrangente, posto que mais acessível, que O Capital: foram 25 edições em 18 idiomas.

Em tempo: Lênin teria conhecido o pensamento de Marx pelas “Doutrinas econômicas”, publicadas por Kautsky. E pelas cartas de Trotzki

Não diferente é o projeto do genro de Marx, Eduard Aveling. Em 1892, fez publicar um seu livro, Os Estudos de Marx – Introdução aos Estudos de O Capital, que circulou com maior eficácia e êxito editorial que o calhamaço original do sogro.

O Capital tem começo, meio, mas não tem fim. Os Livros II III foram dedicados a Sra. Marx, Jenny, com os originais preparados por Engels, aduzindo-se, ainda, o fato de ser ele o autor de todo o Capítulo IV do Livro III.

Marx havia dedicado o Livro II a Charles Darwin. Aflito, este recusou. “Não posso ferir o sentimento religioso de minha família”, desculpou-se junto ao ateu, como se negar o Criacionismo e embandeirar a Teoria da Evolução das Espécies fosse um leve sopro da brisa nas páginas bíblicas de papai e mamãe Darwin.

Ficou a dúvida. Por que Darwin teria temido a lisonja? Segundo as más-línguas da época, o cientista achava Marx e Engels mais feios que os macacos. O argumento é válido, ainda que não verdadeiro. 

Como obra em si, “O Capital” não capitalizou leitores, mas serviu de fonte para que intelectuais medianos da economia sugassem temas e subsídios abastecedores de suas teses. Conrad Schmidt, um deles, escreveu “A taxa média de lucro com base na lei do valor de Marx” (originalmente, o texto é de Engels). Em Nova York, Stiebeling fez o mesmo com “A lei do valor e a taxa de lucro”, com ênfase para a transformação dos valores em preços de produção. Embora creditado tal estudo a Marx e Engels, o pai deste, industrial e culto, havia rascunhado a tese.

Depois da morte de Engels, Kautsky publicou as “Teorias da mais-valia”. Também imprimiu a parte histórica e crítica de manuscritos diversos abandonados por Marx. Só em 1954, quando demoliram Stalin, e até 1961, é que foi publicada a edição russa de “O Capital”.

Calem-se os tambores. “O Capital” só circulou mais amplamente em versões resumidas ou limitadas ao conteúdo do Livro I. Obra obsoleta, pois o debate econômico mais importante do final do século XIX envolvia a questão das crises e dos mercados, termas que estavam inseridos no Livro II, até então acessível a apenas alguns marxistas – Tugás-Baranovski e Rosa Luxemburgo, por exemplo.

Para que tenhamos uma visão desta miopia, até 1899, o Livro I de “O Capital” foi editado 26 vezes em 18 línguas, mas só havia quatro edições do Livro II (uma em russo) e uma única do Livro III.  Assim, só depois da II Grande Irracionalidade, outras edições aconteceram de forma isolada. A edição completa (quase) de “O Capital” só mesmo depois de 1952.

O Partido Social-Democrata Alemão arvorou-se em centro difusor do marxismo. A maioria dos textos de Marx e Engels estava toda lá. Alguns desses originais só eram conhecidos por pensadores, como Bernstein e Kautsky. Bernstein era um “container sem alça”. Brilhante, mas os maus-caracteres também brilham.

Kautsky foi o principal divulgador daquilo que era entendido e aceito como “ortodoxia marxista”. Ele não só editou o chamado Livro IV de “O Capital” (“Teorias da mais-valia”). Kautsky simplesmente salvou a obra marxiana quando, em 1914, elaborou uma edição popular de “O Capital”. Ele incluiu observações contidas em cartas, anotações e adendos feitos por Marx nas margens laterais dos manuscritos.

Aqui falamos de Kautsky, o jornalista, filósofo, historiador e escritor marxista, e não o social-democrata que, não diferente de Lênin, cravou o punhal da traição nas costas de Rosa Luxemburgo.

“O Capital”, filosoficamente, é um não-livro. Recomendável aos desocupados da economia política. Os argentinos, como sempre, leram primeiro. No Brasil, pelos anos 60, Reginaldo Sant’Anna o traduziu, e também “Teorias da mais-valia”, ambos pela Civilização Brasileira. Um outro trabalho foi coordenado por Paul Singer, em 1983.

Ainda nos é devida edição de inéditos de Marx e Engels, textos que dormitam em Amsterdã, até porque há um gancho de interrogação na fronte dos pensadores: a “economia” de Marx é um projeto acabado ou não?

Como as pessoas leem, mas não usam a reflexão para a compreensão daquelas letras desenhadas no papel, cabe apenas uma rápida observação. A obra de Marx nunca chegará ao final. Ele mesmo o disse. Sempre haverá capital e trabalho, burguesia e proletariado, mais-valia e menos-valia, inclusive na ditadura do proletariado. Ao expropriar e dividir igualitariamente a riqueza dos nobres, todos terão que produzir para refazer a mesma riqueza (capital) para tornar a reparti-la. E outra vez, e outra vez, e sempre. Não há capital sem trabalho e nem trabalho sem capital.

Tudo irá bem, até que um dia alguém reclame que faz mais e que merece mais. E a ele se juntarão outros e mais outros. Aí aparecerão as CUT, os MST, os PT, os ETA, os IRA, os Sendero, Al Qaeda.

Quedamos por aqui. O problema do materialismo é o seu desprezo aos sentimentos, às emoções, caracteres inalienáveis da natureza humana.